Os votos no CDS

Não tenho sido o mais fiel seguidor da campanha eleitoral, o que não será a melhor das atitudes mas, excetuando a discussão reduzida quase a pormenores entre PS e PSD, que estão condenados a serem pouco mais que executores do programa do FMI, sobressai um facto importante, que é o desempenho do CDS nas sondagens. Por norma, numa situação em que há um partido no Governo e o seu principal adversário surge bem colocado para o derrotar, é normal a deslocação de votos dessa área política por parte de pessoas que votariam em condições normais noutros partidos, quando o voto estratégico se sobrepõe ao chamado voto sincero ou, por outras palavras, o voto útil.

É um dado relevante o facto de o CDS estar bem colocado nas sondagens, não só porque o voto útil parece não estar a afastar possíveis votantes - com a agravante de PS e PSD estarem muito próximos em intenções de voto - como é conhecido o fraco desempenho do partido em sondagens, tal como sucede com CDU e Bloco de Esquerda, que se deve em parte ao facto de nem sempre os inquiridos estarem disponíveis a revelar aos inquiridores a intenção de votar num partido fora do mainstream político. Estes dois factores levam a pensar que haverá mais motivos de interesse na noite do 5 de Junho do que saber que partido sairá vencedor.

Balas 3

Qualquer indivíduo conhecedor do underground do cinema português conhecerá a saga "Balas e Bolinhos", que já deu dois filmes - lançados em 2001 e 2004 - e cujos protagonistas personificavam uma paródia da figura do herói do cinema de aventura. Os filmes, facilmente incluídos no registo da série B - sobretudo o primeiro - conseguiram o estatuto de filme de culto, sobretudo devido às especificidades das personagens, sempre de língua afiada e com o recorde de palavrões ditos por qualquer personagem num filme português. Depois da segunda saga, ficou no ar que a coisa ficaria por aí, embora nada tenha ficado fechado em termos de história que impedisse uma continuação. Os fãs da saga podem ficar descansados: o derradeiro capítulo desta trilogia única do cinema português está a avançar. Para os interessados, as notícias sobre o processo de concepção do filme pode ser acompanhado aqui.

O pré e o pós-Jorge Jesus

O fim da época do Benfica é evidentemente o melhor dos períodos para efetuar balanços. Para quem vinha de um título que já fugia há cinco anos, as expectativas eram obviamente altas e tudo o que fosse abaixo do que se conseguira em 2010 saberia a pouco. O que é facto é que soube e só por excessiva boa vontade se pode dizer que a época não trouxe um sabor a desilusão, já que a revalidação da Taça da Liga, a impressionante série de vitórias consecutivas a meio da temporada e as meias-finais da Liga Europa não disfarçam os 20 pontos de distância para o campeão, a perda de qualidade no plantel de uma temporada para a outra em virtude de saídas não devidamente acauteladas e o morrer na praia na Taça de Portugal e na Liga Europa.

Nestas alturas, o bode expiatório acaba por ser a mesma pessoa que há um ano atrás era colocado nos píncaros no mundo benfiquista, mostrando que do céu ao inferno a distância é mais pequena no Benfica do que noutro clube qualquer. Se é certo que haveria fatores não controláveis, como a épica prestação do Porto ou o cansaço dos jogadores que estiveram no último Mundial, não é menos verdade que não foi feito o devido planeamento do plantel para acautelar as saídas de jogadores e que nos jogos realmente decisivos a equipa tremeu bastante e as estratégias do treinador ajudaram para isso - uma falha que já vinha da época anterior, basta recordar a derrota com o Liverpool. Ainda assim, faço parte do grupo, provavelmente minoritário, de pessoas que acha que Jesus deve ficar na próxima temporada. Acreditando que há sempre uma margem para aprender com os erros do passado e que essa aprendizagem será útil no futuro, é também importante acrescentar o que se conseguiu nos últimos dois anos: um título nacional (que fugia já cinco anos), duas Taças da Liga, uma meia-final de uma competição europeia (algo inédito desde 1994) e a ajuda inquestionável para a evolução de alguns jogadores. Basta pensar no pré e no pós-Jesus de jogadores como Fábio Coentrão, Di Maria ou Carlos Martins.

No intervalo



Não ouvi nenhuma das canções que foram à final da Eurovisão deste ano, mas tenho quase a certeza que as melhores foram as duas canções que o Jan Delay cantou no intervalo.

Os vídeos dos Ban

Se é certo que hoje em dia quem se dedica ao negócio da música em Portugal tem mais facilmente acesso a meios para efetuar e divulgar as suas gravações em concertos e programas televisivos, há coisa de 20 ou 30 anos esta facilidade não existia. Para citar o exemplo dos videoclips, não faria certamente muito sentido um grande investimento neles quando estes correriam o risco de passarem uma ou duas vezes num qualquer programa televisivo meio underground, isto se fosse suficientemente bom. Houve, no entanto, quem tivesse feito devidamente o trabalho de casa. A banda em causa são os Ban, de que gosto bastante o que para o caso é irrelevante. O canal do Youtube BANDiscografia é provavelmente o catálogo mais completo de uma banda portuguesa que já vi, com várias gravações de concertos, remixes de músicas, aparições televisivas, videoclipes que não terão sido transmitidos mais do que duas ou três vezes na televisão, perfazendo quase 130 vídeos. Um must see para quem gosta desta banda, que regressou recentemente ao ativo.

O que diz Catroga

As declarações de Eduardo Catroga, em que afirmava que urge discutir as questões estruturais em detrimento de pêlos públicos, tem dois méritos: em primeiro lugar, diz uma coisa mais ou menos óbvia sobretudo numa altura - como as notícias de hoje deram conta - de que o país está numa recessão e importa perceber como sair dela, em segundo lugar porque as reações que se seguiram lhe dão precisamente razão. O país está endividado, desmesuradamente depende do estrangeiro e em recessão e, em vez de se discutir esta questão, alvitra-se sobre uma fífia de alguém que nem sequer concorre a cargo nenhum. Depois dos rios de tinta gastos com Fernando Nobre, vem isto. Os tais pêlos púbicos parecem mesmo ser o cerne da discussão política e económica em Portugal.

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O exemplo do azeite

No meio de tão intensa discussão sobre ajuda externa, de que forma aqui chegámos e de que modo o aguentaremos as medidas que o FMI tem em carteira, tem-se discutido pouco o que é fundamental: qual a forma de o país de forma sustentada conseguir crescer de forma a fazer face aos grandes problemas (desemprego, dinheiro para as pensões, endividamento) ? Parece haver um fenómeno meio underground - por se falar pouco nele - um pouco por todo o país, que tanto resulta de uma pequena mudança de paradigma no tecido empresarial, como curiosamente por uma certa asfixia económica dentro de portas que obriga os empresários a abrir-se aos mercados externos. Esse fenómeno chama-se aumento das exportações, que deixaram de ser têxteis baratos ou o turismo para ingleses de classe média baixa, mas cada vez mais com produtos com valor acrescentado - saliente-se o que se tem feito nas energias renováveis. Nesse sentido, vão existindo notícias que são umas pequenas luzes ao fundo do túnel, como o facto de o aumento das exportações do azeite no último ano ter sido de 37% e de o país ter tido um saldo positivo em matéria de importações e exportações.

"Peso pesado"

Não me espanta o facto de haver uma versão de "The biggest looser" na televisão portuguesa, surpreende-me apenas o facto de esta ter surgido apenas agora. Vi pouco da versão lusa, mas a versão americana tem todos os condimentos de um bom reality show: a figura do coitadinho - pela ótica do programa, um obeso nunca chegou a tal estado porque é um bom garfo ou porque prefere ficar no sofá a praticar desporto, mas antes porque a sua vida é de tal maneira infeliz que a coisa chegou a tal ponto - , a componente de sofrimento adjacente ao trabalho e esforço dispendido por cada uma das pessoas, os maus e os bons da fita consoante se apoiem mais ou menos em estratégias e o facto de ser seguido um caminho do início ao fim - como sucede, por exemplo, em programas como a Operação Triunfo. Do pouco que vi, o enfoque tem sido dado mais em aspetos colaterais - como jogos para obter a imunidade nas pesagens - e não naquilo que realmente importa, que é o esforço titânico que aquela gente faz todos os dias, passando num dia no ginásio mais do que a maioria das pessoas que os frequenta passa numa semana. Se houver um enfoque nessa componente de esforço, talvez uma mensagem minimamente positiva saia dali. Caso a componente da intriga e da maldicência venha ao de cima, então um qualquer Big Brother seria suficiente.

Sociologia do Trabalho aplicadas a organizações de malfeitores

Fazendo fé nas notícias que hoje foram conhecidas, Bin Laden foi assassinado. A face mais visível dos atentados do 11 de Setembro e consequente terrorismo que mudou o mundo Ocidental deixa de ser um alvo a abater para passar a ser mais um troféu de batalha dos Estados Unidos, que cantam vitória e dizem que nada será como dantes. Eu estou longe de ser um especialista em geopolítica e terrorismo, mas tenho para mim que há já muito tempo que a Al-Qaeda deixou de ser uma organização de malfeitores com hierarquias definidas e uma organização coesa, para passar a estar dispersa por diversos grupos mais ou menos autónomos - as chamadas "células". Sendo assim, a figura do líder não é tão relevante como noutras organizações de bandidos, como a Máfia ou o Futebol Clube do Porto. Por isso, faz-me uma certa confusão pensar-se como a morte de Bin Laden pode significar o final da ameaça do terrorismo, quando se sabe que o terreno continua fértil para este tipo de fenómenos.

"On the floor"


Quando estive o ano passado na Polónia, na única noite em que pude realmente sair à noite, ouvi por duas vezes e em duas discotecas diferentes, a "Lambada". Lembro-me de ter pensado cá para comigo, no meio de toda aquela confusão envolvendo polacos com um jeito para a dança semelhante ao de um martelo pneumático, de mulheres loiras de 1.80 m para cima e de tipos a serem levados em ombros nas ruas, que raio de moda local justificaria aquela música com 20 anos e com um ritmo e uma língua que nada têm a ver com aquele país. Por estes dias, "On the floor" recupera para as pistas de danças e para as rádios orbitais deste mundo aqueles ritmos, mesmo que se dirija a um público que nem era nascido quando a canção saiu. Cada vez mais chegamos à conclusão que no mundo da música não há fórmulas eternamente esgotadas, ou por outras palavras, não deveremos nunca cuspir no prato onde outrora, musicalmente falando, já comemos.