O mundo do cinema tem destas coisas: um tipo que dificilmente alguém daria por ele enquanto ator tornou-se um fenómeno como figurante. Jesse Heiman dificilmente encaixaria no modelo de ator, mas acabou por fazer carreira como figurante, tendo já aparecido em 50 filmes, quase sempre em papéis de nerd e afins.
O momento Futre
Convenhamos que, na sua génese, a ideia defendida por Paulo Futre na sua inolvidável conferência de imprensa - o potenciar de um clube enquanto marca no mercado chinês graças à contratação do melhor jogador daquele país - não é totalmente desprovida de sentido. Salvaguardadas as distâncias, foi por essa lógica que Ji Sung Park foi para o Manchester United e ainda hoje por lá se mantém. Fosse a coisa apresentada por um diretor desportivo de um outro clube grande português e talvez a coisa até passasse. O problema foi todo o contexto da coisa: um fulano que não é propriamente um orador exímio, com um desempenho a oscilar entre o astrólogo a prever o fim do mundo e um consumidor abusivo de estimulantes, que depois de dissertar sobre o Porsche amarelo que teve no passado, lançando a ideia metendo à mistura a criação de departamentos para jogadores chineses, charters com 500 chineses a aterrarem semanalmente em Lisboa a gastarem dinheiro em restaurantes e museus nos quais o clube teria uma concessão, jogos de exibição na China com receitas de dois milhões de euros e outras ideias peregrinas. Resumindo, tudo somado deu um momento recheado de uma certa comicidade, de que o próprio não teve a perceção. Quanto a mim, que tenho Paulo Futre como um dos melhores futebolistas que já vi jogar - tanto que ainda hoje simpatizo com o Atlético de Madrid à conta deste senhor - , só lamento que este tenha voltado à baila, não por uma qualquer evocação das suas grandes jogadas ou pelos seus diabólicos sprints, mas antes por um momento destes.
A pergunta 32
Este foi o primeiro ano em que olhei com olhos de ver para os questionários dos Censos, talvez por ter sido a primeira vez que tive efetivamente de os preencher por conta própria. De entre as perguntas todas, que me pareciam genericamente fazer sentido, houve uma que fez alguma confusão. Não a pergunta em si, mas as hipóteses nela contempladas: a pergunta 32 do questionário individual, em que é perguntado o modo como exerce a profissão previamente indicada. As hipóteses são: Patrão/Empregador, Trabalhador por conta própria ou isolado, Trabalhador por conta de outrem, Trabalhador familiar não remunerado ou Membro ativo de cooperativa de produção. No entanto, é do conhecimento geral que várias dezenas (arriscaria centenas) de milhares de pessoas em Portugal trabalham como falsos prestadores de serviços, fazendo-o por conta de outrem, sujeitos às mesmas obrigações de quem tem um normal contrato de trabalho - os chamados "falsos recibos verdes". Uma estatística tão importante para o estudo do país - saber de que modo estamos organizados em matéria laboral - acaba por ficar desvirtuada, porque as respostas e os resultados finais estão viciados à partida. Um grande investimento é feito a cada década para que os Censos sejam um retrato o mais fiável possível do país, mas para já os deste ano já padecem de uma falha que demonstram que, se é para andar a fazer estatísticas destas, então não vale muito a pena fazê-las.
Os clubes
Confesso que gostaria que as eleições legislativas que se avizinham tivessem o mesmo grau de clareza de propostas que as eleições no Sporting. Há cinco candidatos, cada um com o seu treinador e os jogadores que podem vir a reforçar o plantel. Atente-se no facto de a maioria, sobretudo no caso dos jogadores, não ser dado como consumado, sendo mais correto dizer que os putativos jogadores estarão apenas referenciados. Afinal de contas, nada de muito diferente do conhecido defeso, em que tanto adeptos como jornais desportivos vão dando largas à sua imaginação e concebendo transferências e possibilidades que apenas se concretizam em 10% dos casos. Por estes dias, viveram-se os momentos "Escolha o seu defeso/pré-epoca favorita, através do seu campeonato", deixando-se um pouco de parte o estado financeiro do clube, que no fundo acaba por esta na génese dos problemas de competitividade da equipa. Tudo isto faz lembrar tempos não muito distantes em que no Benfica se anunciavam treinadores e potenciais reforços como tema de campanha e que foi por esse via que Vale e Azevedo chegou ao clube, o que demonstra que afinal os clubes, na sua essência, não são assim tão diferentes uns dos outros.
As eleições antecipadas
Ponto prévio: há já muito tempo que a soberania nacional estava a ser entregue às instituições europeias, em particular às economias mais fortes, como a Alemanha. O Governo deveria ter anunciado previamente, aos restantes partidos e ao Presidente da República, o que iria ser negociado para o PEC 4. Os partidos da Oposição deveriam ter tentado apresentar outro tipo de propostas, para evitar que os cortes fossem noutro tipo de despesa ou que se tentasse encontrar outro tipo de receita. O Presidente da República poderia ter promovido o diálogo entre Governo e Oposição para se encontrar uma plataforma mínima de entendimento, mas optou por deixar o Governo cair por si próprio. Convenhamos que encontrar um único culpado na situação que atualmente vivemos não será tarefa fácil. Sendo mais ou menos expectável que o próximo Governo venha a ser de outro partido que não o atual e que as eleições antecipadas foram provocadas pelo chumbo do PEC 4, não deixa de ser irónico que esse mesmo Governo terá invariavelmente que meter em prática as medidas que hoje foram chumbadas.
Artur Agostinho
O que mais sobressai na vida de Artur Agostinho é o seu lado multifacetado, que o tornou conhecido por algo que não se sabe bem especificar. O jornalismo desportivo na vertente escrita ou na rádio, a carreira de ator que tanto passou pelos clássicos do cinema português como pelas xaropadas da TVI, a apresentação de concursos televisivos e até alguns anúncios que hoje parecem um tanto ou quanto anacrónicos, como a marcas de tabaco, tudo serviu para dimensionar uma figura cuja versatilidade soa a algo pouco usual nos dias que correm. Dá até a ideia que Artur Agostinho condensou uma vida que seria necessário outros terem nascido e nascido outra vez para terem uma carreira de tal maneira preenchida. Talvez por isso, tenha sido difícil atribuir um substantivo que se colasse a ele, nas notícias da sua morte, tendo até vindo à baila o raio da palavra "comunicador". Artur Agostinho morreu hoje aos 90 anos.
Pluralidade
Quando a palavra barbearia ganha novas dimensões
É só uma questão de tempo até sentirmos que os cabelos começam a atraiçoar-nos, desaparecendo sorrateiramente ou a demonstrando menos força do que outrora. Deixam marcas da sua ausência à frente e bem no topo da cabeça e não raro o desaparecimento faz-se nas duas frentes. Ao primeiro sinal de alerta, lá se vão fazendo as diligências esperadas: consultas de dermatologia, champôs ou produtos para aplicar no couro cabeludo. Apesar de tudo, de forma realista: em lado nenhum nos é prometido que iremos inverter a inevitável calvície, estando apenas a roer a corda e a esticar os prazos em que esta será um dado certo na nossa vida. Até ao dia em que se percebe que esse dia está bem próximo e que pouco mais haverá senão atirar a toalha ao chão e tomar a medida seguinte. Que não é choramingar e rogar pragas a pessoas de família que já não estão entre nós e cujo gene da calvície nos foi implacavelmente passado, mas antes adquirir a máquina que habitualmente vimos nas mãos do barbeiro, mas que agora faz mais sentido ser usada por nós, tal a frequência com que passará a ser usada. À primeira vez, suscita obviamente a questão saber como iremos manejar tal objeto para cortar o próprio cabelo e a ajuda de alguém mais calejado no assunto é fundamental. Que fique registado a primeira vez em que pela primeira vez peguei num aparador de cabelo. A partir de hoje, todo o meu conceito de barbearia será exponencialmente diferente.
R.I.P. Modelo
Há uma ou duas décadas atrás, teríamos certamente o dobro das instituições bancárias que temos hoje, algumas delas com nomes um tanto ou quanto anacrónicos para o que nos habituamos a ouvir no setor atualmente, como Banco Borges e Irmão ou Banco Fonsecas e Burnay. Numa sociedade de consumo como a nossa, é normal associarmos uma parte da nossa vida a certas marcas ou produtos, por isso, pegando novamente no exemplo dos bancos, haverá certamente quem se recorde de ter tido a sua primeira conta num dos bancos que referi.
Recordei-me deste fenómeno de marcas que vão desaparecendo com o fim do Modelo, cujos estabelecimentos passam a ser Continente. A evocação de situações como "Costumava comprar bolos de aniversário para os colegas de trabalho no Modelo" ou "A maior bebedeira que apanhei na vida foi com duas garrafas de whisky que comprei no Modelo de Entre Campos" é reforçada na sua componente nostálgica pelo facto de estar associada a uma marca que deixa entretanto de existir. Ganham as empresas em termos de eficiência, vão-se perdendo para as pessoas certas referências que vinham de trás. Será certamente também à conta destes fenómenos que as "Cadernetas de Cromos" e afins vão fazendo o seu caminho de evocação nostálgica de um passado de que todos nos lembramos.
Recordei-me deste fenómeno de marcas que vão desaparecendo com o fim do Modelo, cujos estabelecimentos passam a ser Continente. A evocação de situações como "Costumava comprar bolos de aniversário para os colegas de trabalho no Modelo" ou "A maior bebedeira que apanhei na vida foi com duas garrafas de whisky que comprei no Modelo de Entre Campos" é reforçada na sua componente nostálgica pelo facto de estar associada a uma marca que deixa entretanto de existir. Ganham as empresas em termos de eficiência, vão-se perdendo para as pessoas certas referências que vinham de trás. Será certamente também à conta destes fenómenos que as "Cadernetas de Cromos" e afins vão fazendo o seu caminho de evocação nostálgica de um passado de que todos nos lembramos.
O protesto
Enquanto o país se vai indignando e José Sócrates parece ser o culpado de tudo o que de mau acontece no país desde há 20 anos para cá, não tem sido dada a devida atenção ao sempre original protesto dos camionistas. Original não porque as palavras de ordem ou as reivindicações sejam novas, mas por ser aparentemente a greve convocada por patrões e não por funcionários dessas empresas - atente-se no paradoxo que seria levantarmo-nos amanhã para ir trabalhar e darmos de caras com a empresa fechada, porque o malandro do patrão decidiu convocar uma greve para paralisar toda a atividade - e também pelos métodos menos ortodoxos de convocar mais manifestantes, recorrendo às sempre eficazes pedradas sobre colegas de trabalho e à coação física sobre os mesmos. Expedientes deste género, aliados ao impacto que têm nas próprias empresas e na vida do comum cidadão que poderá ver-se privado de alguns bens necessários ao seu dia-a-dia (lembram-se dos protestos do Verão de 2008?), dificilmente recolherão grande simpatia da população em geral.
O underground
A manifestação de ontem da Geração à Rasca teve dois méritos inquestionáveis: o de conseguir juntar na mesma manifestação gente de esquerda e de direita (desde grupos anarquistas até skinheads) e de diferentes gerações e também o de demonstrar de forma cada vez mais visível o underground laboral de que cada vez mais gente neste país faz parte. Underground esse onde se incluem os mais variados fenómenos - falsos recibos verdes, empresas de trabalho temporário dedicadas a retirar a sua parte dos rendimentos obtidos pelo trabalho de milhares de pessoas, estágios não remunerados, empresas a aproveitarem-se do excesso de mão-de-obra disponível para declaradamente pagar abaixo do valor que as pessoas deveriam receber - e que funcionam como rastilho para o descontentamento, como ontem se viu.
Pese embora algumas falhas na forma como o protesto se organizou pelo país - diria que foram escolhidos demasiados pontos para o protesto, que esvaziou locais como Coimbra ou Guimarães, em detrimento dos dois grandes pólos de manifestação - não se pode dizer que o protesto de ontem não foi um sucesso. No entanto, soou mais a uma expressão real do descontentamento popular sob uma forma mais expontânea do que a algo com um conteúdo político devidamente estruturado. Apesar de José Sócrates ser o alvo mais fácil para as palavras de ordem, o que é facto é que esta precariedade que vai grassando pelo país e que não dá mostras de abrandar terá muitos mais rostos visíveis, desde os anteriores governos até às associações patronais, as quais culpam a rigidez do mercado do trabalho para este estado de coisas. Tenho para mim que uma mudança de Executivo, previsivelmente com outras cores políticas seja apenas PSD ou em coligação PSD-CDS, não irá alterar o estado em que o país vive, mas a manifestação de ontem alertou quem vier a seguir que há rastilho para mais protestos e revolta social.
Pese embora algumas falhas na forma como o protesto se organizou pelo país - diria que foram escolhidos demasiados pontos para o protesto, que esvaziou locais como Coimbra ou Guimarães, em detrimento dos dois grandes pólos de manifestação - não se pode dizer que o protesto de ontem não foi um sucesso. No entanto, soou mais a uma expressão real do descontentamento popular sob uma forma mais expontânea do que a algo com um conteúdo político devidamente estruturado. Apesar de José Sócrates ser o alvo mais fácil para as palavras de ordem, o que é facto é que esta precariedade que vai grassando pelo país e que não dá mostras de abrandar terá muitos mais rostos visíveis, desde os anteriores governos até às associações patronais, as quais culpam a rigidez do mercado do trabalho para este estado de coisas. Tenho para mim que uma mudança de Executivo, previsivelmente com outras cores políticas seja apenas PSD ou em coligação PSD-CDS, não irá alterar o estado em que o país vive, mas a manifestação de ontem alertou quem vier a seguir que há rastilho para mais protestos e revolta social.
Googladas
fernando pessoa icone pop
fotos de negonas com o grelho grande
havia barden
hi5travestis
como comprar etiqueta de lacosta
vinho com cravo causa aborto?
JOGOS DE RABIADA
big tostas ericeira
"o jel é um"
fotos de negonas com o grelho grande
havia barden
hi5travestis
como comprar etiqueta de lacosta
vinho com cravo causa aborto?
JOGOS DE RABIADA
big tostas ericeira
"o jel é um"
O país indignado
Primeiro foram os Deolinda, depois a convocação do protesto da Geração à Rasca, seguindo-se a vitória dos Homens da Luta no Festival da Canção. Faltava a cereja em cima do bolo, que era o Presidente da República a tomar posse e dizer que este país anda uma bandalheira e que, por este caminho, não vamos a lado nenhum. É impressão minha ou a indignação é um vírus que se anda a alastrar pelo país?
Quando desconhecidos nos recebem na sua casa
No último fim-de-semana, visitei pela primeira vez um restaurante chinês clandestino do qual já ouvia falar há algum tempo. O conceito não será muito elaborado, mas pelos vistos anda a recolher adeptos: uma casa que poderia ser a de qualquer um de nós, mas onde as camas e os sofás são substituídos por mesas de refeição e onde se lava a loiça no hall. De resto, boa comida, preço convidativo, um espaço de tal maneira familiar que se torna pitoresco.
Não me recordo de, até hoje, ter tido más experiências em restaurantes clandestinos: paguei sempre um preço justo, nunca comi mal, nem o meu sistema digestivo deu qualquer sinal de alerta. No fundo, a clandestinidade tem o mérito de acabar com uma certa frieza da relação comercial que envolve sempre uma ida a um restaurante. O facto de se estar perante uma relação que não é comercial no sentido mais generalizado do termo faz com que nos sintamos como uma espécie de convidados de umas pessoas que não conhecemos mas que fizeram a gentileza de abrirem as portas de sua casa, tal como fizeram a outros indivíduos que por ali andam e que têm o mérito de também terem sido convidados, o que lhes tira o rótulo de estranhos. Ao invés de sermos recebidos numa fria sala de restaurante, somos convidados a almoçar na sala, com um pouco de sorte junto à varanda, para que possamos sentir o contacto com a vizinhança. Responder-me-ão com a frieza do argumento de que no final se paga, tal como noutro qualquer estabelecimento. O dinheiro funciona como um cómodo substituto da velha e batida garrafa de vinho que invariavelmente levamos quando alguém nos convida para ir jantar a sua casa. E, corrijam-me se estiver enganado, as garrafas de vinho não são propriamente algo que se consiga de borla.
Não me recordo de, até hoje, ter tido más experiências em restaurantes clandestinos: paguei sempre um preço justo, nunca comi mal, nem o meu sistema digestivo deu qualquer sinal de alerta. No fundo, a clandestinidade tem o mérito de acabar com uma certa frieza da relação comercial que envolve sempre uma ida a um restaurante. O facto de se estar perante uma relação que não é comercial no sentido mais generalizado do termo faz com que nos sintamos como uma espécie de convidados de umas pessoas que não conhecemos mas que fizeram a gentileza de abrirem as portas de sua casa, tal como fizeram a outros indivíduos que por ali andam e que têm o mérito de também terem sido convidados, o que lhes tira o rótulo de estranhos. Ao invés de sermos recebidos numa fria sala de restaurante, somos convidados a almoçar na sala, com um pouco de sorte junto à varanda, para que possamos sentir o contacto com a vizinhança. Responder-me-ão com a frieza do argumento de que no final se paga, tal como noutro qualquer estabelecimento. O dinheiro funciona como um cómodo substituto da velha e batida garrafa de vinho que invariavelmente levamos quando alguém nos convida para ir jantar a sua casa. E, corrijam-me se estiver enganado, as garrafas de vinho não são propriamente algo que se consiga de borla.
Luta na Eurovisão
Basta saber um pouco como funcionam as dinâmica na Internet, em particular nas redes sociais, para perceber que a vitória dos Homens da Luta no Festival da Canção era relativamente esperada ao nível da votação do público. Uma canção de uns tipos que já aí andam há alguns anos e com maior visibilidade no Youtube, My Space, Facebook e afins conseguiria mais facilmente os votos junto do público jovem, mais familiarizado com o uso da tecnologia para poder votar. Era mais difícil de prever se os votos dos júris distritais iriam ajudar no resultado. Acabou por se verificar que sim, apesar de os júris no cômputo geral terem preferido outra canção.
Durante largos anos, Portugal andou apenas a dizer "presente" na Eurovisão. Para isso, contribuiu essencialmente o facto de se ter apostado na mesma forma dos outros países: canções total ou parcialmente em Inglês, duos de cantores e melodias que não se distinguiam da maioria das canções. Os últimos anos alteraram esta maneira de pensar e apostou-se em algo que nos distinguiria de todos os outros países, indo buscar as nossas sonoridades mais tradicionais e originais envolvendo devidamente numa roupagem mais atual. As classificações melhoraram. A canção que representará Portugal na Eurovisão deste ano afasta-se da tendência de evocação das nossas raízes, mas irá trazer outro dado à equação: um certo fator (e peço desculpa por não encontrar melhor palavra) circense. A evocação do cançonetismo de intervenção dos tempos da Revolução e do PREC dificilmente dirá alguma coisa a um espetador croata ou norueguês, mas nunca se sabe se aquela iconografia revolucionária vintage conseguirá sobressair num festival carregado de cantoras e bailarinas carregadas de sex appeal, de indivíduos a transpirar metrossexualidade, de eurodance um pouco mal amanhado e de canções cantadas em inglês por países de que raramente ouvimos falar. Se resultar, fica o mérito de se ter trazido à liça uma canção com algumas características intrinsecamente portuguesas, ainda que sob forma de paródia. Se formos corridos nas meias-finais, ao menos ficamos com a consolação de termos feito algo de bastante original.
Durante largos anos, Portugal andou apenas a dizer "presente" na Eurovisão. Para isso, contribuiu essencialmente o facto de se ter apostado na mesma forma dos outros países: canções total ou parcialmente em Inglês, duos de cantores e melodias que não se distinguiam da maioria das canções. Os últimos anos alteraram esta maneira de pensar e apostou-se em algo que nos distinguiria de todos os outros países, indo buscar as nossas sonoridades mais tradicionais e originais envolvendo devidamente numa roupagem mais atual. As classificações melhoraram. A canção que representará Portugal na Eurovisão deste ano afasta-se da tendência de evocação das nossas raízes, mas irá trazer outro dado à equação: um certo fator (e peço desculpa por não encontrar melhor palavra) circense. A evocação do cançonetismo de intervenção dos tempos da Revolução e do PREC dificilmente dirá alguma coisa a um espetador croata ou norueguês, mas nunca se sabe se aquela iconografia revolucionária vintage conseguirá sobressair num festival carregado de cantoras e bailarinas carregadas de sex appeal, de indivíduos a transpirar metrossexualidade, de eurodance um pouco mal amanhado e de canções cantadas em inglês por países de que raramente ouvimos falar. Se resultar, fica o mérito de se ter trazido à liça uma canção com algumas características intrinsecamente portuguesas, ainda que sob forma de paródia. Se formos corridos nas meias-finais, ao menos ficamos com a consolação de termos feito algo de bastante original.
Dropkick Murphys
De vez em quando, admitimos umas falhas imperdoáveis na nossa cultura musical. São filhos de emigrantes irlandeses em Boston e diz-se que são um dos grandes nomes de um género que me era desconhecido - o "Celtic Punk". Se fosse uma banda recente, a falha seria desculpável, mas o facto é que cá andam há já 15 anos. Tenho andado mesmo muito distraído para ainda não ter dado com os Dropkick Murphys.
Qualidade - preço
Não terá sido certamente um dos filmes que me marcou mais - pese embora reconhecer que não é fácil fazer um filme sobre um tipo preso a um calhau no meio do deserto e que o interesse não se perde com o passar do tempo - mas será certamente o filme de que me vou lembrar quando ouvir alguém dizer que os produtos básicos de sobrevivência feitos na China são iguais aos outros, ainda que muito mais baratos. "127 Horas" é a murphyologia quase levada ao limite, mas o que é facto é que se baseia em factos reais. Com as desgraças dos outros, também tiramos lições para nós mesmos.
