Provocação clubista

Na noite da vitória, Cavaco Silva aproveitou para lançar atoardas a quem lançou legítimas dúvidas sobre situações menos claras no passado recente, como a relação com o BPN - que o próprio nunca soube dissipar convenientemente -, chamando-as de calúnias e de vil baixeza. Este estilo truculento de celebrar vitórias em jeito de provocação clubista está normalmente mais associado aos dirigentes desportivos e não será certamente o que mais se pede ao mais alto político da nação. A boa notícia no meio de tudo isto é que ontem foi o dia em que Cavaco Silva foi eleito para alguma coisa neste país.

Os resultados

Sobre os resultados das Presidenciais, haveria algumas coisas mais ou menos previsíveis: Cavaco Silva dificilmente não seria eleito à primeira volta, a abstenção seria provavelmente alta não só porque o vencedor era praticamente conhecido e porque o recenseamento automático (mercê do alargamento do cartão do cidadão à população) incluiu nos cadernos pessoas que antes nunca foram consideradas como podendo votar; Manuel Alegre não iria beneficiar do facto de ser apoiado por dois partidos, esquecendo-se que nem sempre uma eleição deste género se faz com uma simples aritmética de votos obtidos noutras eleições; r o PCP mostra que há uma fatia razoável de eleitorado fiel e que votou em Francisco Lopes como votaria noutro candidato qualquer vindo do PCP.

Quanto aos dados surpreendentes, é de registar o resultado das candidaturas vindas de fora do sistema. Fernando Nobre tem certamente o direito de dizer que a sua candidatura tinha o cunho de independência - basta comparar com Manuel Alegre, que se dizia independente quando se candidatava em 2006 - e essa independência deu-lhe certamente de vários setores políticos. Num estilo mais folgazão, José Manuel Coelho conseguiu resultados expressivos na Madeira e conseguiu passar a mensagem no Continente, mostrando que o seu estilo - que passa na Madeira porque ali tem um terreno fértil para o populismo mais pagodeiro - consegue captar votos em franjas de eleitorado não tão pequenas. Por fim, o último dado surpreendente, neste caso pela negativa, é a confusão gerada pela afluência às urnas dos eleitores com cartão de cidadão. As eleições normalmente não geram grandes problemas em matéria de organização, fama que parece ter ficado beliscada no dia de hoje.

Gente que não se vende

Cheguei ainda há pouco a casa depois de ter ido jantar fora e presenciei um episódio assaz interessante. Num restaurante turco - duvido que se contem com mais do que os dedos de uma mão os existentes em Lisboa - vi um grupo de 10 jovens (20 anos ou pouco mais) que tinha acabado de entrar ser expulso do restaurante pelo dono, pelo facto de um casal que fazia parte desse grupo estar aos beijos. Após uma breve discussão, em que por um lado o dono do restaurante citava a falta de respeito que não era tolerada no seu estabelecimento e em que os jovens, meio embuídos do espírito hippie/Erasmus diziam que tal beijo era apenas a celebração da vida e que o dono do restaurante teria que o aceitar, discussão que obviamente acabou com o grupo a sair e a ir procurar pouso noutro local. Sem querer defender a atitude do senhor turco - que, aliás, não vende álcool no seu restaurante - , devo salientar que este deitou fora a oportunidade de ganhar algumas dezenas de euros e de certamente ter perdido potenciais clientes, apenas em nome dos seus princípios, que, embora os possamos considerar demasiado intransigentes, faz questão de defender. Haja ainda pessoas que não se vendem.

A prenda

Ainda que comprada há mais de um mês, não deixa de ser estranho oferecer como prenda de anos um saca-rolhas a alguém que tem Castro como um dos seus apelidos. Parece paródia, mas aconteceu hoje. Ao menos que o saca-rolhas seja bom, para compensar a ironia a cheirar a humor negro.

O rombo civilizacional

O mundo virtual andou agitado nos últimos dias com a hipotética mudança no quadro dos signos que conhecemos. Parecia que tinha tremido um dos pilares da nossa civilização tal como a conhecemos. Desde que me lembro, mudaram países, governos, sistemas políticos, equipas de futebol, tecnologias e até a meteorologia já não é bem a mesma de quando eu era petiz. Mas os signos, esses, mantiveram-se imutáveis: a criança que hoje vier ao mundo pode ser bonita ou feia, pode ser feliz ou infeliz no futuro, mas de certeza que será Capricórnio até ao dia em que se finar. Essa imutabilidade dos signos não andaria longe daquelas coisas que nos são óbvias, como o céu ser azul ou o Sol ser amarelo, e , de repente, dizer-se que um Balança passaria a ser Virgem ou que um Sagitário se transformaria num Serpentário seria um rombo semelhante nas nossas vidas ao de descobrirmos que uma hora afinal tem 70 minutos em vez de 60 ou que o mar não é azul, mas antes outra coisa qualquer.

Certo é que este alvoroço tinha alguma razão de ser. A velha corrente de estudo do ser humano, baseada no seu signo - quantas vezes não ouvimos a frase "Vê-se mesmo que és Capricórnio!" ou "Eu sou Aquário, nunca poderia ter um namorado Escorpião" e afins? - parece ter sido posta em causa. Verdades absolutas como da tendência dos Gémeos para a dupla personalidade ou o feitio obstinado dos Touro perderam a sua credibilidade. Vá lá que tudo acabou em bem e o autor do tal novo mapa astral reconheceu o erro, podendo todos nós regressar à normalidade. Como alguém a quem até custa saber o nome dos signos - tive até que andar a fazer pesquisas pela Astrologia do Clix para conseguir fazer este post -, acredito que o remédio para acabar com a credibilidade que esta ciência ainda tem é saírem notícias de mudanças de mapas astrais de 15 em 15 dias.

Sentido de voto

Como disse antes, tenho acompanhado pouco a campanha eleitoral. Desconheço a generalidade dos temas da campanha ou quem ganhou os debate, mas o sentido de voto já o tinha decidido há largos meses: de amanhã a oito, votarei em Fernando Nobre. Mais do que um voto estratégico, é o chamado voto sincero - usa-se esta distinção quando se trata de falar em votos úteis e afins. Para além de ser alguém com um percurso cívico sem grande paralelo no Portugal de hoje, consegue ser, no meio da generalidade dos candidatos, o que não padece do pecado original do que é a presidência da República em Portugal, que é o facto de os presidentes da República estarem ligados a partidos e, no exercício do cargo, serem obrigados a intervir em situações em que esses partidos estão em disputa com outros partidos, o que coloca reticências em matéria de isenção e independência. Não tendo esse lastro de atividade partidária dos restantes candidatos, haveria certamente melhores condições para intervir no debate político do país. Talvez um bom contributo para melhorar a qualidade da nossa Democracia seja o surgimento de figuras vindas de fora dos partidos.

Os 10 anos da SIC Notícias

Os 10 anos da SIC Notícias, assinalados no último fim-de-semana, fizeram-nos recordar, mais do que o trabalho feito durante esta década, a viragem que o seu surgimento trouxe. Nascido na sequência da falsa partida que foi o CNL - certamente um canal bem intencionado, mas com algum amadorismo em excesso, que não se compadecia com a tarefa em causa - a SIC Notícias teve o condão de, enquanto canal de televisão, conseguir mudar a forma como as notícias eram mostradas ao público, dando curso à revolução trazida pela TSF, pouco mais de uma década antes. Se, até então, estávamos confinados aos noticiários da hora do almoço e da hora do jantar, as notícias passaram a ser mostradas de hora a hora, sendo que aquilo que era verdadeiramente relevante - as chamadas "breaking news" - passaria a aparecer sem pedir licença. O acesso à informação passou a ser cada vez maior e os acontecimentos e consequente cadeia de reações começaram a surgir em intervalos mais curtos, obrigado os habituais protagonistas das notícias a mudarem a relação com os meios de comunicação social. O 11 de Setembro de 2001 - o grande acontecimento internacional do Séc.XXI até agora - deu uma ajuda ao canal, então com menos de um ano de existência, e ajudou a mostrar que afinal haveria material e público para uma oferta deste género e a prova é que, atualmente, qualquer um dos grupos que nos oferece os canais generalistas também tem o seu canal de notícias.

Quando a bizarrice é notícia

Se há coisas em que não somos propriamente dignos de registo é a forma como desaparecem as nossas figuras públicas das mais diversas áreas. Ao longo dos anos vamo-nos habituando aos políticos, jornalistas, músicos ou atores que se despedem com a mesma naturalidade que a generalidade da população. Invariavelmente, lá vêm citadas as doenças prolongadas que normalmente ficam por explicar, os ataques cardíacos ou um outro acidente. Excetuando um outro caso como Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa ou António Variações, a forma como as nossas figuras morrem não é propriamente a primeira coisa que vem à memória quando se fala delas. Por estes dias, somos sobressaltados com a morte de uma tal figura pública, morta num cenário simultaneamente glamouroso e macabro - seja por alegadamente ter sido morto pelo namorado 45 anos mais novo, por ter ocorrido num luxuoso hotel da cidade que é o centro do Mundo, pelos requintes de malvadez que rodeiam este assassinato - e é certo que a forma como morreu não ficará dissociada da forma como será recordado no futuro. Ironicamente, logo alguém que fez vida a falar dessas mesmas figuras públicas acaba por morrer da maneira mais bizarra de todas.

O desinteresse

Confesso que o meu interesse na campanha eleitoral para as Presidenciais tem sido reduzido. O facto de as segundas voltas das presidenciais parecerem quase decididas à partida e do estranho consenso em torno do Presidente-candidato (em que o titular do cargo é quase confundido com a instituição em causa), a quadratura do círculo que se torna fazer para explicar os poderes do Presidente - uma leitura cuidada da Constituição da República explica o que é preciso - sem se falar que estamos a discutir mais o estilo e a pessoa do que qualquer outra coisa ou a convicção que, independentemente de quem venha a ganhar, esse nome não irá tirar o país do lamaçal em que infelizmente nos encontramos, tudo isto são razões para um certo desinteresse meu à partida. Por estas ou por outras razões, algo que me diz que o sentimento se estende ao resto da população portuguesa e isto não sou eu a armar-me em sociólogo de paragem de autocarro.

Jornalismo de coelhos na cartola

O facto de existirem três jornais desportivos em Portugal - uma daquelas idiossincrasias que deve fazer de nós um país único no mundo nesta matéria - aguça, mais do que o espírito jornalístico de quem neles labora, um engenho para ir buscar diariamente assuntos para encher dezenas de páginas e para convencer o leitor a dispender de algum dinheiro para comprar os respetivos títulos. Aqui, as capas dos jornais são evidentemente fundamentais. Por norma, as notícias mais ou menos bombásticas - as possibilidades de transferências de jogadores envolvendo os grandes dão um excelente contributo - surgem como apelativo, mas não deixa de ser verdade que o que interessa mesmo são os resultados. Sendo que os três jornais noticiarão evidentemente o mesmo jogo, vale a pena perceber como uns se distinguem dos outros. O Record sabe ser o mais original em matéria de títulos, recorrendo com grande frequência aos mais variados trocadilhos, envolvendo nomes dos protagonistas, o que, convenhamos, não é tarefa fácil se os protagonistas se forem repetindo. Hoje, tirei mais mais uma vez o chapéu aos trocadilhos das capas do Record: "Salviola", reunindo os nomes dos dois marcadores dos golos de ontem. Certamente que na fábrica de ideias que será a cabeça de quem congemina estes títulos, este título já estaria há muito imaginado para o dia em que estes dois argentinos se lembrassem de ser estrelas num jogo dos encarnados, mas suscita sempre a curiosidade sobre que mais títulos estarão guardados algures numa gaveta à espera do momento certo.