Legislativas

O resultado das eleições legislativas de ontem refletiu o ambiente de fim de festa e de expectativa de mudança de Governo. Por um lado, houve uma transferência significativa de votos do partido do Governo para aquele que teria mais hipóteses de ganhar - neste caso protagonizada por aquele eleitorado pouco ideológico e mais oscilante, que tanto vota no PS como no PSD e que normalmente decide os resultados finais. Verificou-se também a penalização dos partidos mais pequenos devido ao fenómeno do voto útil - que afetou essencialmente o BE, mas que inviabilizou um crescimento maior do CDS. Fica no ar a ideia de que a vitória do PSD se deveu mais à intenção de parte do eleitorado em afastar José Sócrates do cargo de Primeiro-Ministro do que propriamente numa esperança significativa de que quem vier a seguir vá mudar substancialmente o estado de coisas, sendo mais expectável uma alteração de protagonistas e de estilo do que de políticas, até porque já se sabe que a margem de manobra imposta pelo FMI para os próximos anos não é grande.

Para quem se interessa pela política à portuguesa, há dois fenómenos interessantes a seguir, ambos à Esquerda. Em primeiro lugar, saber de que modo o PS irá gerir a saída de José Sócrates. É sabido que o partido nos últimos anos tem sido governado à sombra do líder demissionário, pelo que as discussões ideológicas e de programa andaram longe das preocupações do partido. As eleições para a escolha de um novo líder poderão ser a primeira oportunidade para essa discussão. Em segundo lugar, o resultado do Bloco de Esquerda, que perdeu metade dos votos e dos deputados em comparação com 2009, deverá obviamente gerar algum debate interno sobre as recentes decisões - desde o apoio a Manuel Alegre até à ausência nas reuniões com o FMI - e também sobre se irá manter-se essencialmente como destino de um voto de protesto ou se irá contribuir para um entendimento mais amplo à esquerda da nova coligação governamental que agora se forma.

Por último, uma nota sobre os resultados de dois dos partidos que praticamente correm por fora nas eleições: MRPP e PAN conseguiram ambos votações acima de 1%, sem que tivessem conseguido eleger qualquer representante. Por outro lado, este mesmo sistema de atribuição de deputados dá 50% de representação parlamentar a partidos que consigam à volta de 45% dos votos, o que obviamente enviesa uma proporção entre resultados e representação dos cidadãos no Parlamento. Métodos de Hondt à parte, seria mais do que justo que qualquer um destes dois partidos conseguisse eleger pelo menos um deputado no Parlamento, face aos resultados das escolhas dos eleitores. Antes de se discutir o elevado abstencionismo nestas eleições, seria importante também discutir a lei eleitoral que deixa de fora franjas de eleitores, que compreensivelmente poderão achar que o seu voto simplesmente acaba por ser inútil.

0 comentários: