Fecho de contas

Não tenho razões de queixa de 2010. Nas diversas dimensões de que é feita a vida de um indivíduo, o que este ano que agora finda me trouxe não me traz más memórias: um bom desempenho profissional e a primeira viagem de trabalho digna desse nome, um ou outro amigo novo e a oportunidade de reforçar relações que já vinham de trás, bons momentos de diversão e paródia, nenhum problema de realçar a nível pessoal ou familiar. Pode parecer pouco, mas para um cidadão zeloso da sua pacatez, discrição e tranquilidade habitual isso já conta muito. O ano que hoje termina não foi certamente o mais profícuo em termos de atividade aqui no LdM, mas deixo aqui um agradecimento a quem foi dispendendo do seu tempo para ver o que se foi fazendo por aqui. Até 2011!

Enriquecer a cultura musical





Fala-se muito de músicas indelevelmente associadas a determinados anúncios televisivos, há até pela net diversos fóruns dedicados ao assunto sobretudo com pessoas a perguntar a música deste ou daquele spot, mas acredito que está por se falar no impacto das músicas que servem de banda sonora de videojogos. Eu, como fraco conhecedor do mundo dos videojogos - apesar de ostentar vaidosamente uma PS3 no meu móvel da sala - que acaba por ir parar invariavelmente a jogos de desporto - cito acima de tudo as várias sagas do FIFA e do NBA Live - ao longo dos anos fui-me habituando às mais variadas músicas que vamos ouvindo nos períodos intermédios entre uma partida e outra. Sendo que o FIFA se especializou numa mistura de Rock, Indy e músicas do mundo com sonoridade pop - por lá até já passaram Blasted Mechanism e Buraka Som Sistema - e que o NBA Live alinha mais por hip-hops, R&B e afins, acabo por inevitavelmente enriquecer a minha cultura musical sem dar por isso. Citando o Fifa 10 (o 2011 só compro quando passar para menos de metade do preço na Amazon), pergunto-me de que forma iria conhecer as duas pérolas de grupos cuja existência desconhecia. E creio não ser o único: procurando no Youtube pelas músicas de tais bandas sonoras, lá vai a recordação mais ou menos saudosa do videojogo em causa.

O alívio do 26 de Dezembro

As compras de última hora, o congeminar a prenda a dar, os centros comerciais abarrotados, as filas que parecem aumentar a cada dia que passa, as inevitáveis viagens de algumas horas em camionetas cheias de gente, a programação televisiva mais ou menos óbvia, as pastelarias cheias de doces que ajudam a aumentar os níveis de todas aquelas coisas más que são analisadas nos nossos exames rotineiros, as músicas que ganharam lugar vitalício em qualquer playlist natalícia, as SMS completamente despersonalizadas, o Facebook tomado de assalto pelo Natal e as dezenas de amigos com tags na mesma foto a desejar boa quadra para todos quantos se conhecem. É por estas e por outras que quando chega o dia 26 de Dezembro, a palavra que certamente mais me povoa a cabeça será "alívio".

Parecenças

É costume dizer que, por norma, o ser humano não gosta muito de se rever noutras pessoas. Ou seja, e aqui usando a esfera familiar, nem sempre gostamos que nos digam que somos muito parecidos com o pai ou com a mãe ou que temos um feitio bastante parecido com outra pessoa - é um clichê do insulto alguém dizer "És tal e qual como o teu pai/mãe!" quando a conversa acaba por descambar. Também não é o melhor dos sentimentos quando vemos noutras pessoas certo tipo de falhas que nós próprios temos, seja o mau gosto para vestir, a teimosia que criticamos mas que reconhecemos que temos em dose semelhante, o que nos dá sempre uma perspetiva de nós próprios de que nem sempre gostamos.

Aplica-se o mesmo quando vemos alguém fisicamente parecido connosco. De tempos a tempos - como quem diz, de anos a anos - lá me cruzo com um indivíduo parecido comigo. Para além disso, lá me fui acostumando a ouvir relatos de um indivíduo muito parecido comigo que reside em Carnaxide ou de ser exatamente igual a alguém que fez a tropa com um empregado de um café onde ia quando andava na faculdade. Se a pessoa parecida comigo fosse sempre a mesma, seria menos mau, mas pelo que vou vendo, associado a estes relatos, a perceção conduz-me a sentido contrário. Aconteceu-me há uns dias ver um novo indivíduo igual a mim. Em pleno Media Markt, lá aparecia um sujeito que parecia eu próprio, embora com meia dúzia de anos a mais. Nenhum comportamento anormal, como é costume nas lojas de comércio, as mesmas feições, a mesma falta de cabelo e uns óculos sobre o nariz. Pese embora até ser uma situação normal - visto eu não ter propriamente um traço distintivo em relação ao resto da população - o primeiro pensamento é invariavelmente o mudar de zona e evitar o contato visual. É que não é certamente o melhor dos sentimentos cruzarmo-nos connosco próprios (ou quase) no espaço público.

Discussões presidenciais

Recordo-me, dos tempos em que andava a fazer inquéritos de opinião porta a porta, que, quando questionava as pessoas sobre qual a opinião sobre os titulares de diversos cargos políticos, o de Presidente da República era sempre aquele que reunia melhores classificações e menos reações adversas. Mesmo sendo a pessoa simpatizante do PSD e o titular do cargo um militante do PS (neste caso Jorge Sampaio). Da mesma maneira que hoje em dia, Cavaco Silva tem níveis de simpatia mais elevados do que os dos líderes partidários. Não tenho fundamentos suficientes para dizer com precisão a razão para tal, mas tenho algumas teses - o facto de ser um cargo acima de querelas partidárias ou de ser uma espécie de última reserva da Nação, bem como a ideia de que estamos perante alguém que não mete efetivamente a "mão na massa" , não sofrendo com as críticas pelas decisões que toma. Sendo assim, a figura do Presidente, independentemente da pessoa que naquele momento ocupa o cargo, consegue reunir algum tipo de consenso na população. As sondagens que têm vindo a público mostram que Cavaco Silva poderá até ganhar com uma margem maior em comparação com 2006, o que mostra que a associação pessoa - cargo está feita há muito. Em suma, esta segunda eleição não é o melhor dos cenários para quem deseja fazer uma reflexão sobre o estado do país ou o papel do Presidente. E haveria certamente matéria para discutir sobre qual o papel do atual Presidente no estado a que o país chegou e quais as alternativas. Teremos certamente uma discussão sobre o assunto no próximo ano, mais tardar em 2012, quando chegarem as tão propaladas legislativas antecipadas. E, já agora, saber como é que o Presidente da República irá lidar com o assunto.

Juro que este blogue um dia fecha as portas e abro um só para o raio dos "guilty pleasures"...

Cenários de caos




Depois de se terem incutido no imaginário popular as dobragens de filmes para adultos nos longínquos tempos em que havia um canal que ninguém via mas tinha audiências fabulosos ou as mulheres sempre iradas, mas dotadas de uma capacidade invulgar para dominar o mundo, nos filmes de Almodovar, fica notório que o espanhol é uma língua que acaba por resultar bem em cenários de caos com forte componente psicológica à mistura. "Cela 211" é uma boa história, mas convenhamos que noutra língua perderia o seu impacto. Quem sabe se o cinema espanhol não terá encontrado um novo nicho.

Chuva miudinha

Nos últimos dias, tem-se assistido ao sempre interesse fenómeno meteorológico da chuva miudinha, também chamada de chuva molha parvos. Desconheço qual o motivo pelo qual a sabedoria popular classificou com este epíteto a queda de chuva em quantidades reduzidas, mas arrisco que a situação dilemática criada com esta situação possa ajudar: se é certo que não se pode qualificar esta reduzida queda de chuva como uma situação efetiva de pluviosidade, não é menos verdade que a queda de água vinda dos céus tem a conhecida designação de chuva. Ou seja, ou bem que chove ou bem que não chove. Se juntarmos a esta estranha equação o fator chapéu de chuva, ficamos então com uma melhor perspetiva desta situação dilemática: vale ou não a pena usar o chapéu de chuva para quando cai chuva, ainda que em quantidades ridiculamente baixas? A mim quer-me parecer que, mais do que um simples fenómeno meteorológico, a chuva molha parvos se assemelha mais uma questão de índole filosófica.

Fim do Contra-Informação


Surgido há década e meia, pouco depois da chegada do Guterrismo, o Contra-Informação viu passar quatro primeiros-ministros, dois presidentes da República e dezenas de ministros de seis Governos diferentes. Nos primeiros tempos, veio suprir uma lacuna que era a inexistência de uma sátira política na televisão nacional numa base regular e os desenvoltos bonecos conseguiram agitar um pouco as águas e trazer para o discurso popular expressões como o "Quantos são?! Eu não tenho medo de ninguém!!" ou o "G'anda nóia, ó chefe!". No entanto, as mudanças a que a televisão e a própria sociedade assistiu nos anos seguintes - maior assinatura de canais do cabo e cada vez mais canais temáticos, massificação do acesso à Internet, novos fenómenos de humor televisivo - fizeram com que o programa fosse perdendo o impacto inicial ao longo do tempo. Ao fim de 15 anos, o Contra-Informação fechou hoje as portas, alegadamente pelo esgotamento do próprio formato, um argumento com o qual é difícil não concordar. Ainda assim, é de realçar o facto de um formato com este nível de exigência - fazer humor com base diária convenhamos que não é tarefa fácil - se ter mantido durante tempo no ar. Provavelmente, durante bastante mais tempo do que o inicialmente previsto, ainda a maioria da população só tinha acesso a quatro canais e a Internet era uma coisa de que se começava a falar.

Subsídios para uma abordagem cinematográfica

Quando andava na escola, lá havia um ou outro professor que de vez em quando se lembrava de trazer à liça uns filmes que de alguma maneira se relacionavam com o assunto em questão. Pese embora para os alunos tratar-se de um momento de lazer mais do que de aprendizagem, sob a ótica da pedagogia havia a intenção de os alunos poderem aprender as coisas de uma forma diferente. Certo é que, com as escolhas e a abordagem correta, lá havia qualquer coisa que ficava.

Lembrei-me destes métodos pedagógicos, nesta minha tarde caseira acompanhada de chuva a cair lá fora, ao ver "A Missão", filme feito há 25 anos e protagonizado por Robert de Niro e Jeremy Irons, que aborda as missões da Companhia de Jesus na América do Sul no Séc.XVIII e da forma como isso chocou com os interesses dos colonizadores. Portugueses e espanhóis ficam obviamente mal na fotografia, em contraste com os defensores dos indígenas expropriados do que lhes pertencia. Face à qualidade do filme e ao interesse histórico para um período em particular da História, falemos nós de História Universal ou da História do nosso país - pela primeira vez, vi mencionado o Marquês de Pombal num filme americano -, perguntei-me a mim mesmo por que razão nunca este filme me foi mostrado pelos meus professores de História, quase que apostando que o facto se estende à população estudantil que estudou a disciplina na escola. Urge, portanto, reforçar a formação cinéfila dos nossos docentes.

O Mundial de 2018

Olhando para as escolhas de anfitriões para os mundiais de futebol ao longo das últimas décadas, podemos concluir que foi estabelecido uma espécie de padrão, em que ora eram escolhidos países com tradições futebolísticas ora eram selecionadas nações em que seria necessária uma grande competição para ajudar a divulgar a modalidade. Voltando vários mundiais atrás, começando em 1990, lá vemos os mundiais realizados nas grandes nações futebolísticas - Itália, França, Alemanha - a intercalar com países com dimensão económica em que o futebol ainda não é uma modalidade tão óbvia e sem historial de organização destas provas - Estados Unidos da América, Coreia do Sul / Japão, África do Sul. Sendo que o próximo Mundial será realizado no país do futebol - leia-se, o Brasil - não seria de excluir que a escolha do evento seguinte recaísse num dos tais países apetecíveis do ponto de vista económico mas ainda sem tradição na realização de grandes eventos futebolísticos. Por esse ponto de vista, a escolha da Rússia parecia encaixar mais nesta espécie de lógica de sanduiche do que a candidatura ibérica ou da Inglaterra, o que faz com que ninguém se deva sentir envergonhado com o anúncio feito hoje.