Os planos táticos

Numa altura em que se constituiu como efeméride o início da carreira de José Mourinha, há 10 anos num soturno Benfica presidido por Vale e Azevedo e cujos craques eram Sabry ou Ivan Dudic, soou o gongo da lei de Murphy no jogo contra o Barcelona. O jogo que mostrou que aquele futebol do Barcelona, que de tão irritante acaba por se tornar eficiente, afinal consegue vergar a equipa com os melhores jogadores e o melhor treinador do Mundo. Quem viu ontem os jogadores do Real Madrid a correr que nem baratas tontas atrás da bola, a fazer lembrar os velhos jogos da "rabia" da nossa infância, chega à conclusão que nem os melhores planos táticos conseguem fazer frente a estilos de jogo engendrados para deitar por terra qualquer estratégia. A vitória de ontem do Barcelona demonstrou que, no meio de tanta discussão sobre táticas e da emergências dos Luises Freitas Lobo desta vida, ainda continuamos a falar de uma bola a ser disputada por 11 indivíduos dentro das quatro linhas.

A rede social

Sendo um dos grandes fenómenos do tempo que atravessamos - digamos um horizonte temporal de três ou quatro anos - suscitaria sempre a curiosidade a abordagem que seria feita ao Facebook em si no filme "A rede social". O filme está longe de dar uma imagem glamourosa do fenómeno, o que não seria muito difícil. Ao invés, a estória segue caminhos um pouco mais tortuosos, mais baseado nas histórias pessoais dos envolvidos do que no Facebook propriamente dito. E aí a moral da história é mais ou menos explícita: para se chegar a bilionário - e Mark Zuckerberg conseguiu-nos antes de outro qualquer - é preciso um rastro de inaptidão social, falta de charme, facadas nas costas dos amigos e vinganças pessoais expostas na Internet. Convenhamos que a génese da nossa grande rede social está longe de ser um bom cartão de visita.

A greve de amanhã

Para além dos naturais transtornos na vida quotidiana daqueles que amanhã vão trabalhar, a Greve Geral de amanhã não irá trazer grandes mudanças ao panorama do país, já que não será com isto que, de repente, o país melhora a competitividade, os salários sobem ou o país deixa de recorrer a financiamento externo, cada vez mais alto. O cenário será mais ou menos previsível: centrais sindicais e Governo divergirão naturalmente nos números e no significado do protesto, os setores do costume aderirão ao protesto, uns especialistas em Economia alvitrarão o impacto da greve no PIB e uma parte do país, constituído por desempregados ou trabalhadores no limiar da pobreza, assistirá um pouco atónito a um protesto de quem está salvaguardado do desemprego devido ao vínculo ao Estado. Há pouco tempo, ouvi alguém dizer que a única forma de se alterar o estado de coisas é repetirem-se por cá os cenários de violência a que assistimos, por exemplo, na Grécia, com pancada entre manifestantes e polícia, carros partidos e incêndios pela cidade. No dia em que o Governo e todo o sistema político, que arrasta pessoas para a pobreza ao mesmo tempo que salva bancos e salvaguarda negócios com privados lesando o interesse público, se aperceberem que há cada vez mais pessoas com pouco a perder, talvez aí o cenário se altere.

Os tipos da luta


Gosto muito do Media Markt, mas a mais recente campanha publicitária, utilizando iconografia e linguagem associada à luta por direitos numa altura em que aumentam as razões para protesto e uma greve geral está à porta, é daquelas coisas que não lembram ao diabo.

Karaoke Chinês



Voltar ao Karaoke Chinês é, mais uma vez, o regresso a um local onde se foi feliz. O local onde, em regime semi-privado, até o pior cantor do mundo se sente legitimado a pegar no microfone perante uma audiência que invariavelmente partilha a mesma falta de jeito para cantar, funcionando como um espaço de cumplicidade e uma espécie de mundo à parte. A comida de fraca qualidade, a decoração num estilo anos 70 série B, os funcionários entregues à sorte de ter como trabalho o assistir a tristes performances musicais, tudo combinado cria uma espécie de Disneylândia fora de sítio e uma atmosfera em que, por momentos, acreditamos, como que por magia, que até cantamos alguma coisa. Depois de alguns anos em que era um local de peregrinação mais ou menos corrente, as minhas visitas a tal lugar vão sendo cada vez mais espaçadas. O glamour, esse é que parece não desaparecer.

O particular

Estive ontem na Luz a assistir ao Portugal - Espanha. Meia-casa para um jogo contra o campeão do Mundo, facto para o qual contribui o facto de ser um jogo amigável e também a recente descrença que se instalou em torno da equipa nacional, facto a que Paulo Bento tem sabido dar uma sapatada. O jogo de ontem mostrou que os bons velhos tempos da nossa selecção, com alas rápidos, um meio-campo a funcionar como a "casa de máquinas da equipa" - citando, claro está, uma expressão de Luís Freitas Lobo - e uma defesa atenta às investidas contrárias. Dir-me-ão que o resultado conta pouco, dado tratar-se de um amigável. Não é, ainda assim, menos verdade que qualquer selecção envergando o título de melhor do Mundo tem obrigação de jogar para ganhar, a que não será alheio o facto de ter vindo a Portugal com as grandes figuras. Quem sabe se o que resta do apuramento para o Euro 2012 não nos pode trazer algumas alegrias.

Em busca da tertúlia perdida

Apesar de considerar meritório o meu esforço em ir ao ginásio, por norma, três vezes por semana, continuo a encontrar pedras no meu sapato - metaforicamente falando - desde que há pouco mais de um ano decidi abdicar de algum do meu tempo livre para praticar desporto. A principal pedra no sapato prende-se com a ambiência em tais espaços. Quem me conhece sabe o quanto gosto de ouvir as conversas alheias, não tanto por curiosidade na vida alheia - que tenho na mesma quantidade que qualquer outra pessoa - mas mais pelas idiossincrasias na linguagem que acabo por aprender. No entanto, julgo já ter um capital de experiência razoável em ouvir conversas de ginásio para saber que não é por ali que vou buscar grandes ensinamentos, tendo como agravante que o móbil das conversas muda consoante eu lá esteja de manhã ou de tarde. Se, de manhã, as conversas dos reformados se situam entre dois grandes pólos - leia-se, o estado melhor ou pior de saúde dos frequentadores e recordações de tempos gloriosos que já lá vão, com a tropa ou a Guerra Colonial à cabeça - da parte da tarde, as conversas acabam inevitavelmente por ir parar às melhores proteínas para o treino, sobre o desenvolvimento dos bícepes ou relatos na primeira pessoa de situações de conflito, que não raro descambam em pancadaria. Chamem-me apocalíptico, mas continuo a acreditar que aprendo mais em 15 minutos numa boa conversa de passageiros à espera do autocarro numa paragem da Carris do que nestes locais. Mas também é verdade que os ginásios nunca foram locais de tertúlia popular.

Isto em 1976



"Save your kisses for me" é a saudável memória de tempos em que as músicas eram de tal maneira desprendidas de segundas intenções ou qualquer panfletarismo, com uma ingenuidade tal que pareciam ter sido feitas por um adolescente de 15 anos apaixonado, e onde havia clara intenção de espalhar alegria pela audiência. Digam-me o que disseram, mas numa altura de tanta desgraça, o mundo está claramente necessitado destas músicas tolinhas mas insidiosamente viciantes.

João Serra

Começou há coisa de 10 anos. Um senhor a rondar os 70 anos, de ar aristocrático, metia-se ao caminho à noite e ia para o Saldanha acenar aos carros que por ali passavam. Na altura, a situação gerou as mais diversas reacções, num país nem sempre habituado a lidar com a estas figuras mais excêntricas, havia quem dissesse que o senhor padecia de uma doença mental, outros alvitravam que o sujeito andava no engate. Aos poucos, deixou de ser uma estranha figura para se tornar numa referência da cidade: ficou a saber-se o seu nome e história de vida tornou-se conhecida, gerou o interesse de artistas que lhe dedicaram músicas e o convidaram para filmes e foi entrando nos hábitos de quem passava à noite pelo Saldanha e que sabia que teria de mandar a buzinadela da praxe. Hoje, João Serra morreu e não será exagero dizer que a cidade ficou um pouco mais pobre. Numa altura em que tanto ouvimos falar de dinheiro, de juros de dívida, de vender a alma ao diabo em troca de dinheiro para salvar a Nação, soa quase a um contra-senso as história do homem que se limitava a acenar a desconhecidos em troca de uma simples buzinadela.

O segundo maior clube português

Desde que acompanho o futebol, habituei-me a ver o Porto ganhar mais do que o Benfica, sem que com isso deixasse de ser benfiquista. Habituei-me também a ver a rivalidade Porto-Lisboa alicerçada nesta disputa futebolística, facto bizarro num país tão pequeno como o nosso e com uma grande mobilidade de pessoas dentro do seu espaço. Esta rivalidade acabou por se misturar com a existência de um grande vetor desportivo em Portugal: o anti-Benfica, espécie de Alfa e de Ómega nos mais variados adeptos e não apenas nos do Porto ou do Sporting, para quem o próprio clube mais não é do que uma forma de tentar tirar o Benfica do posto de clube com mais campeonatos, mais sócios e maior base social de apoio entre os portugueses. Este mesmo sentimento provocou estranhas alianças, como aquela que existe entre Porto e Sporting, que ajudou a que o Porto se tornasse mais forte e levando a uma espécie de belenização do Sporting, o que ajuda a explicar fenómenos como os da transferência de Moutinho para o Porto, algo que seria impossível de acontecer se a Luz fosse o destino, nem que os valores de oferta fossem o dobro. Sendo assim, do lado do Sporting acabou por ser mais ou menos aceite a perda de força do próprio clube, desde que essa força não fosse transferida para o Benfica. Assim sendo, não são assim tão disparatadas as declarações do ilustre sportinguista Rogério Alves que, esquecendo-se que a perda de pontos do Porto seria mais benéfica para o seu clube do que o contrário, mostrando-se regozijado com o desfecho do jogo de ontem.

Carlos


Face ao que se passou hoje no clássico com os andrades, não sei se hei-de ficar mais transtornado com o resultado se com o ressuscitar, no painel de comentadores da Sport TV, deste senhor.

Na rede

Esta fotografia publicada no Facebook, por um indivíduo que é irmão de uma conhecida modelo paraguaia, valeu ao próprio artista o direito a ser preso por suspeita de assalto. Sendo certo que não se sabe ao certo se este molho de notas orgulhosamente ostentado na Internet terá a ver com o assalto de que é suspeito, não é menos verdade que a tentação para publicar estes troféus de caça no Facebook é grande. Face à promiscuidade e confusão existente entre a nossa vida privada e aquilo que mostramos no Facebook, qualquer dia o tenaz investigador não terá que andar a fazer investigação a calcorrear ruas e vielas como vemos nos filmes, passando a sentar-se comodamente à frente do seu PC à espera destas pistas que o desprevenido cidadão vai deixando pela rede, substituindo o inquérito expedito por um simples "Search".