50 anos de Maradona


Se hoje em dia é possível seguir o futebol europeu em igualdade de circunstâncias face ao futebol português, há coisa de 20 ou 25 anos a coisa era bastante mais difícil, por não existir Internet ou as transmissões televisivas não serem muitas, exceção feita às grandes competições de seleções. Dessa altura, em que Itália albergava o campeonato com maior fama e de Inglaterra se jogava ao "Kick and Rush" em relvados enlameados e com hordas de desordeiros nas bancadas, existiam obviamente algumas referências: o Real Madrid com Butrageño e Hugo Sanchez, os três holandeses do AC Milan que rivalizavam com os três jogadores da RFA que representavam o Inter de Milão - um duelo que até foi protagonizado na final do Euro 88 - , Michel Platini que liderava a Juventus e fazia os franceses acreditar em títulos da selecção, a habitual camioneta de craques do Brasil com Zico à cabeça, o finalizador Gary Lineker do Tottenham e por aí fora.

No entanto, houve um nome que marcou o futebol por essas alturas: Diego Maradona. O jogador que se transformou numa estrela, conjugando talento e polémica em proporções semelhantes, igualmente conhecido pelos dribles e jogadas a desafiar a imaginação como pela forma errante de estar na vida, que conseguiu dar projeção mundial a um clube de uma cidade italiana mais conhecida pela Mafia do que pelo futebol lá praticado, que servia de inspiração a qualquer garoto que tivesse uma bola nos pés, que, no fundo, deliciava qualquer adepto do desporto-rei. Acresce a isso, o condão de ter protagonizado episódios com forte carga simbólica, como a célebre "Mão de Deus" contra os Ingleses em 86, considerada uma vingança pela derrota na Guerra das Malvinas, quatro anos antes. Destes tempos recordo obviamente o melhor jogador com a bola nos pés de que fui, de alguma forma, contemporâneo - Pelé até pode ter sido o melhor do mundo, mas eu ainda não tinha nascido quando ele jogava futebol - e que demonstrou de forma mais inequívoca que o futebol é jogado por homens e não por peças em complexos xadrez táticos e que, como tal, tanto podem protagonizar a genialidade como cair nas mesmas teias que qualquer um de nós. El Pibe nasceu faz hoje 50 anos.

OE 2011

Na minha inocência sobre a alta política portuguesa, sempre achei que as negociações entre o Governo e o PSD para o Orçamento de Estado para 2011 eram coisa mais para entreter do que outra coisa qualquer. Dada a necessidade de ter as contas do Estado aprovadas, parecia-me mais ou menos óbvio que o desenlace seria alcançar um acordo por estes dias e as negociações serviriam para ambas as partes quererem mostrar sentido de Estado e capacidade de fazer vingar determinados pontos de vista. As notícias de hoje dão conta do contrário, com ambas as partes a acusarem-se mutuamente de inflexibilidade e afins. Sei que o Orçamento de Estado será um duro golpe em praticamente todos os setores do país - exceção feita aos protegidos do costume, como a alta finança - , mas acredito que nesta altura talvez seja menos mau ter este Orçamento do que não ter nenhum. Certo é que a atualidade deste país vai sendo recheada de episódios interessantes de seguir. Para quem andou tantos anos a ouvir falar na pacatez deste pequeno país no cantinho da Europa, estes últimos tempos têm sido um folhetim quase a fazer lembrar períodos mais agitados da nossa História recente, como a Primeira República ou o PREC.

Cócós de pombos

Ontem, pela primeira vez na minha vida, fui ao Paintball. Começo por reconhecer que se trata de uma tarde de sábado diferente e que, para quem quer fugir ao badalado stress do dia-a-dia, a fórmula é capaz de resultar: desgaste físico, concentração numa atividade com alguns níveis de adrenalina, o gatilho a funcionar quase como que escape emocional. Eu, que estou para o mundo das aventuras radicais e da adrenalina como os vegans estão para um rodízio de carnes, acabo por me sentir um pouco perdido no meio de todo aquele festival bélico de trazer de casa envolvendo tiros, fatos-macaco, espingardas que disparam cócós de pombos, mini-táticas militares, o que obviamente retira o prazer que daí deveria tirar. Relativamente aos 20 ou 25 euros que se gastam numa sessão da coisa, acredito piamente que existirão melhores destinos para o dinheiro.

Confesso que já estava com saudades deste indivíduo

Do Rossio para o Mundo

Soube hoje que José Mestre - o indivíduo portador de um tumor que lhe ocultava quase toda a cara, que circulava pela zona do Rossio - foi submetido a uma cirurgia nos Estados Unidos para que esse mesmo tumor lhe fosse retirado. O caso suscitou interesse da comunidade científica após ter sido protagonista num documentário do Discovery. Falando obviamente de um caso bastante extremo - que normalmente aguçam a curiosidade de médicos mais diligentes - é legítimo perguntar a razão por que passaram décadas até que fosse operado, para mais nos Estados Unidos. Sempre ouvi várias teorias a propósito do facto, desde não haver solução médica para o caso até o próprio ter rejeitado ser operado por ser Testemunha de Jeová. Não só por estas incertezas mas também pelo impacto da sua imagem para quem com ele se cruzava, não será exagero que ao longo dos anos foi-se criando mais a imagem de uma espécie de mito urbano do que alguém de carne e osso.

Traços de masculinidade

«Então e já partiste a bilha lá ao travesti?»

Ouvido assim meio à socapa, enquanto me cruzava com dois homens na casa dos quarenta anos que conversavam entre si.

O cartel

Hoje, na Feira da Ladra, dei de caras com o facto de o mesmo produto tinha o mesmo preço nas quatro bancas onde estava à venda. Parece mais ou menos evidente que o preço do dito produto, que é normalmente alvo de bastante procura pelos visitantes, está a ser alvo de práticas de cartelização - leia-se, fixação consertada de preços - pelo que o consumidor acaba por não ter na prática, grandes possibilidades de escolha. Certamente que já vimos esta história numa panóplia de artigos, sejam os combustíveis ou as chamadas de telemóvel, mas é fácil concluir que, numa coisa a economia paralela e a dita economia normal estão em sintonia, que é de não haver autoridades sérias que regulem a concorrência. É, que pelo espírito dos vendedores que hoje apanhei, qualquer esforço para regatear preços seria em vão.

Por menos de um pequeno-almoço



Não o incluindo numa lista, vá lá, de 20 filmes preferidos, é certo que "Russian Ark" é certamente uma das fitas que mais me impressionou. Não falo em particular na história ou no desempenho dos atores, mas pela forma como o filme nos é apresentado. Ao longo de 97 minutos, um estrangeiro para por 33 salas do palácio que hoje acolhe o Museu Hermitage, em São Petersburgo, percorrendo três séculos da História da Rússia. Em si, este dado nada teria de anormal, não fossem estes 97 minutos sido filmados num único take, conseguido à quarta tentativa e ensaiado durante três meses. O arrojo da ideia, que resultou num grande filme, merecia certamente ter sido mais bem acolhido e se há filmes que foram claramente subvalorizados pelo público do Cinema este é um claro exemplo. Quem nunca ouviu falar em tal coisa, pode amanhã redimir-se: por apenas 1,95€ é possível comprar o DVD com o jornal Público.

Dois meses depois

Foram mais de dois meses a ouvir diariamente notícias dos 33 mineiros chilenos presos a 600 metros de profundidade. Foram meses de interesse para todos, seja para os especialistas em Geologia que pensavam como a derrocada tinha acontecido e qual a melhor forma para esburacar o solo, seja para os estudiosos da mente humana, certamente intrigados sobre como aqueles homens iriam reagir. Fizeram-se festas junto ao buraco, a seleção chilena não se esqueceu deles e o mundo foi seguindo a história à espera do respetivo desfecho. Que ocorreu hoje, com o resgate dos outrora anónimos mineiros que se tornaram, sem o saberem, protagonistas de um acontecimento à escala global. No meio de tanta notícia má por esse mundo, sabe bem ouvir algumas com um desfecho feliz.

Quadratura do círculo

A atribuição de um Nobel da Paz a um preso político chinês suscitou críticas do PCP, que lançou um comunicado alvitrar a existência de marosca dos americanos. Não dispondo de poderes para o comprovar, suscita-me apenas a estranheza a forma como os comunistas portugueses estão sistematicamente a colocar panos quentes quando se fala de ditaduras por esse mundo fora, como a já falada China, a Coreia do Norte ou Cuba. Se é certo que cada um é livre de achar bem as ditaduras que quiser, questiono-me obviamente sobre a legitimidade dos velhos slogans anti-fascistas e em defesa dos trabalhadores, se depois ouvimos atoardas destas. Tentar encaixar a velha retórica anti-fascista dos nossos comunistas com esta defesa de ditaduras por esse mundo fora soa um pouco à quadratura do círculo.

O castigo

Em tempos, Sacavém era uma terra respeitada. Terra pacata a poucos quilómetros de Lisboa, tinha, até há poucas décadas, na sua famosa fábrica de louça uma espécie de embaixador, que fazia com que por todo o país o seu nome fosse citado quando se falava das mais diversas cerâmicas. O fim da sua produção cerâmica significou para Sacavém o mesmo que o término do TV Rural significou para a agricultura portuguesa: o princípio do seu fim. Não que Sacavém tenha desaparecido do mapa - até aumentou a sua população - mas começou a ganhar uma certa aura de decadência. As antigas casas de fados deixaram de o ser para se tornarem tabernas pouco higiénicas - passe a redundância - a servirem vinho de qualidade duvidosa, os prédios de classe média começaram a ser rodeados por bairros de barracas, o espírito de vila foi substituído pela insegurança provocada por jovens com andar à organgotango e aquilo que era uma vila com alguma homogeneidade social, composta por uma certa classe média operária oriunda essencialmente de outros pontos do país, acabou se tornar numa espécie de babel, onde há barracas e há apartamentos para uma classe média alta, ironicamente instalados numa urbanização situada nos antigos terrenos da antiga fábrica da loiça.

Por estes dias, ouvimos falar de Sacavém nos meios de comunicação social, por causa das enchentes provocadas pelas chuvas fortes. Há quem fale em fenómenos meteorológicos anormais, em zonas comerciais localizadas abaixo do nível do mar e que são invariavelmente afetadas, na falta de prevenção e demais clichês. A mim, ninguém me convence destes argumentos veiculados pelos media. Face à degradação das últimas décadas, parece-em que estas enchentes cheiram mais a castigo divino do que a outra coisa qualquer.

Segredinhos

Confesso que à primeira não me apercebi de todo o potencial existente na Casa dos Segredos, da TVI. A mistura entre reality show de fórmula gasta, jogo e curiosidade sobre o comportamento humano é mais evidente aqui do que em qualquer outro formato do género. Sendo certo que os segredos dos concorrentes, que vão sendo conhecidos aos poucos, acabam por criar algumas desigualdades entre eles - convenhamos que é mais fácil ocultar um relacionamento passado com um futebolista do que um distúrbio do foro psicológico - , a incógnita é averiguar se o clima de incessante interrogatório e de permanente observação irá manter-se ou se tudo acabará numa amena paródia voyeurista ao estilo do Big Brother. No meio de tanta gente, sobressai a figura de um jovem de 20 e muitos anos oriundo de Baião, pastor de ovelhas e que vem pela segunda vez a Lisboa. Por detrás do sotaque carregado e dos modos das gentes do campo - que até já fizeram um indivíduo, que deve pouco à sagacidade, pensar que esteve nove anos num convento - esconde o segredo que mais aguçaria a curiosidade do comum cidadão, já que parece ser ele o propalado antigo proprietário de um bar de alterne. Urge, portanto, continuar a seguir os próximos episódios.

Abdicar da pacatez

Entre os participantes de reality shows na última década em Portugal, houve de tudo: gente que catapultou a carreira que já tinha, gente que soube aproveitar a projeção, quem caísse em desgraça ou quem passasse novamente para o anonimato a que esteve submetido antes de se aventurar na exposição mediática. Ainda assim, fazendo uma estatística, é fácil concluir que, se falarmos a longo prazo, essa participação não terá trazido grandes frutos. Ainda assim, não deixa de ser simpático pensar em entrar num reality show como uma solução fácil de saída numa altura em que o dinheiro não abunda e o país parece caminhar ao abismo, nem que para isso se abdique da própria privacidade e pacataz da vida de cidadão anónimo. Só assim se percebe que 60 mil pessoas tenham concorrido à Casa dos Segredos da TVI, que hoje começa.