Mais do mesmo

Quando o comum cidadão pretende acertar as suas contas, começa em primeiro lugar por cortar naquilo que parece mais ou menos evidente: os jantares fora de casa, as deslocações que podem passar a ser feitas de transportes públicos, os serviços não essenciais como a televisão por cabo ou a empregada doméstica, os vícios e por aí fora. Numa segunda análise, pode tentar ir buscar dinheiro de outra forma, como um segundo emprego.

Vem tudo isto a propósito das medidas anunciadas pelo Governo para as contas do Estado no ano que vem, em que se vão ouvindo as velhas receitas: aumento do IVA, baixar ordenados de funcionários públicos e pensões, corte nas deduções ou no rendimento mínimo. Em suma, continuam a castigar-se as franjas menos favorecidas da sociedade, nomeadamente pelo ataque ao poder de compra, ficando de fora as grandes transações de dinheiro por off-shores e as operações feitas em bolsa. Quando à despesa, a tónica não muda: é relativamente fácil lançar o ataque às dezenas de milhares de euros gastos no Rendimento Social de Inserção - até porque ataca as franjas mais abaixo da sociedade, sem qualquer influência - mas nada se faz em negócios lesivos do Estado, como as parcerias feitas com privados, por exemplo nos transportes e nos hospitais, e o flagelo das empresas públicas - basta ir ver os ordenados dos administradores da EPUL para se ficar com uma ideia - ou dos institutos. Continua a voragem fiscal para alimentar um Estado muito grande, quando na prática paira a dúvida sobre se o dinheiro que todos nós para lá enviamos é efetivamente bem gasto e se a dimensão do Estado até nem poderia ser reduzida, sem que o serviço para a comunidade fosse sacrificado. Mexe-se pouco no que realmente interessa. Assim sendo, aceitam-se apostas para saber quando chegará aí o papão, leia-se o FMI.

Será exagero considerar esta música o maior sucesso de 2010?

Tópico de conversa

Na semana passada, houve um calor dos diabos, tempo farrusco, um arrefecimentozinho, para esta semana as temperaturas baixarem para os 20 e poucos graus. Toda esta degradação do estação do tempo, do ponto de vista do veraneante, teve hoje o seu corolário, com uma chuva ao início da noite. É impressão minha ou amanhã as conversas de ocasião sobre o estado do tempo, nas paragens de autocarro e padarias deste país, estarão definitivamente ao rubro?

O selecionador

Convenhamos que Paulo Bento não tem uma tarefa fácil pela frente: ao assumir o comando da seleção até 2012, concluímos que o objetivo passa pela qualificação para o Euro 2012, o que, convenhamos, afigura-se complicado, tendo em conta os resultados recentes. Para o próprio, que tem para já o mérito de não ter visto o seu nome contestado à partida, o desafio soa um pouco a extemporâneo, já que por norma este cargo é assumido ao fim de carreiras maiores do que menos de meia dúzia de anos e com vários clubes pelo meio. Depois de ter pegado no Sporting após a crise Peseiro (que tinha trabalhado antes no Real Madrid precisamente com Carlos Queiroz) e de agora assumir esta tarefa que soa mais a obrigação patriótica do que a outra coisa, apetece dizer que Paulo Bento se está a transformar numa espécie de José Figueiras no mundo dos treinadores de futebol.

Educação

Chamem-me antiquado, mas ainda me lembro de que, para passar de ano e atingir níveis de escolaridade era preciso ir às aulas, fazer testes e ter níveis mínimos de aproveitamento. Estas etapas obrigatórias ao nível de frequência de aulas e de estar sujeito a normais processos de avaliação nunca me suscitaram grandes sobressaltos morais, daí não obstar aos chumbos por faltas e achar que os exames acabam por ser a única forma de se fazer um julgamento daquilo que cada um sabe.

Se críticas devem ser imputadas aos governos do PS (o último e o atual) em matéria de Educação, não seriam tanto pelas medidas mais mediáticas, como a avaliação dos professores - que suscitou críticas da classe, essencialmente por se vislumbraro fim de toda uma série de direitos adquiridos - ou o fecho de escolas com menos de 20 alunos - excetuando os casos mais gritantes de grandes distâncias entre a casa dos alunos e as escolas, o problema maior é o acentuar da interioridade mais do que razões de ordem pedagógica - mas essencialmente o sinal que é dado ao país. Numa altura em que o país tem uma concorrência externa cada vez mais agressiva, em que disputa a atração de investimento com países bem mais competitivos - nem vamos à China, basta ir aos países de Leste - , em que os nossos trabalhadores mais qualificados têm mais facilidade em dar o salto para o estrangeiro, seria fundamental investir na exigência da educação para podermos dar maiores competências para quem entrará no mercado de trabalho no espaço de duas décadas. Em vez disso, o país é confrontado com o oposto, com um nivelamento cada vez mais por baixo do nível de exigência face aos alunos - consta que os exames nacionais são cada vez mais fáceis à medida que os anos vão passando - e com verdadeiros logros, como as Novas Oportunidades, em que, graças à experiência profissional, se pretende dar equivalência escolar precisamente a quem não lá andou durante os anos em causa, o que não deixa de ser injusto para centenas de milhares de portugueses obrigados a cumprir à risca os diversos passos do ensino. O caso revelado esta semana no Expresso, de um aluno que não cumpriu o Secundário e que, através das tais Novas Oportunidades e graças a um 20 num Exame Nacional, conseguiu ser o melhor candidato do país - inclusivamente à frente de quem entrou em Medicina - é o melhor exemplo para o estado anedótico a que a coisa chegou.

Porto

No meu período de férias que ontem terminou, passei alguns dias no Porto. O facto em si nada teria de anormal não fosse o facto de a última vez que o tinha feito ter sido há coisa de 10 anos, bem como, tudo somado, não ter até hoje passado mais do que um total de três dias naquela cidade, sempre sem o tempo que seria desejável. Se há algo a lamentar é o facto de apenas agora ter visto a cidade com algum tempo e disponibilidade, já que estão ali reunidas todas as condições para eu gostar de uma cidade: o tamanho (um bom meio-termo entre Lisboa e outras cidades mais pequenas, como as capitais de distrito) que dá um caráter mais funcional à cidade em que as coisas estão efetivamente mais perto umas das outras, zona histórica com grande atividade comercial mesmo sem ser nas ruas principais, uma quantidade impressionante de personagens de língua afiada e sangue na guelra que preenchem o nosso imaginário mais refinado, zonas que misturam espírito de bairro com uma tentativa de cosmopolitismo (estou a pensar na Ribeira), um sistema de transportes públicos mais pensado para o utente do que em Lisboa (nomeadamente ao nível de bilhetes) e um espírito eminentemente old school - ruas inteiras recheadas de lojas cujos letreiros não são mudados há mais de duas décadas, edifícios emblemáticos (como o mercado do Bolhão) cuja piada acaba por ser precisamente o seu caráter anacrónico. Só por má vontade, decorrente de uma rivalidade criada essencialmente por bairrismos barrocos aliados a disputas futebolísticas, pode haver quem não ache piada ao raio da cidade.