Ir num pé e voltar no outro

Este blogue, e eu próprio, vai de férias durante duas semanas e meia. O LdM regressa às atividades à beirinha da chegada oficial do Outono. Até lá!

O percussionista



Descobri que o "Rapper do Metro" tem mais de 8 mil fãs no Facebook. Não é preciso vê-lo muitas vezes em ação para ficar na memória. O jovem que para além de cego também é toxicodependente encontrou como forma de sustento ir pedir para o metro, de uma forma que pareceria familiar não fosse o método com que o faz. O clássico "Agradeço a quem tenha a bondade ou a possibilidade de me auxiliar" é devidamente envolvido num ritmo que inicialmente gera estranheza, num rap que parece ir buscar influências a algo que não sabemos muito bem. Tudo recorrendo ao que está à mão: uma bengala, uma caixa de moedas e o que vai encontrando pelo caminho. À primeira vista, não passa de uma maluquice, mas um olhar mais atento desvenda um certo talento: para além de marcar o ritmo com a bengala, consegue ao mesmo tempo introduzir outra batucada com recurso à caixa de moedas e pedinchar uma esmola, tudo isto sem se perder por entre as carruagens. E, tal como disse antes, falamos de um tipo que é cego e toxicodependente. Não fosse esta última condição, é legítimo perguntar se a música portuguesa não perdeu um competente percussionista.

CC Mouraria

São as pessoas que terão vindo da China, da Índia ou do Brasil. É o cheiro a comida ou a produtos alimentares que parecem vir de locais bem distantes e que causam estranheza. São os DVD de Bollywood com os artistas bem salientes na capa, não interessa se o filme é um drama ou de acção. São famílias inteiras à porta das lojas, sentadas em cadeiras de praia, quase sempre envergando chinelos por causa do calor. São as músicas que se ouvem aqui e ali que nada têm de familiar para o incauto visitante. É o produto cuja qualidade nos parece quase sempre duvidosa, mesmo se o expedito vendedor, num português pouco fluente, nos tenta convencer do contrário. Entrar no Centro Comercial da Mouraria está longe de ser um mero ato comercial, para se tornar numa experiência quase sociológica, por ser quase o epicentro de uma zona de Lisboa que parece ser quase autónoma do resto da capital. Tenho para mim que sair de casa para ir para aquela zona é poder viajar para fora do país durante uma tarde.

Estatuto do aluno

Sem conhecer em pormenor o novo estatuto do aluno, que hoje foi promulgado pelo Presidente da República, há algumas ideias do documento que me pareciam relevantes: a reprovação de alunos por acumulação de faltas injustificadas e o fim das provas de recuperação. Foi há pouco mais de uma dúzia de anos que saí da escola e nessa altura ainda se chumbava por faltas - quem não se recorda da expressão "tapado por faltas"? - e onde as provas de recuperação simplesmente não existiam, pelo que não estou a evocar qualquer tese dos tempos da ditadura. Tal situação, que acabava por provocar alguns chumbos, estava longe de me parecer injusta. Não é preciso ser um especialista em Educação para perceber que o facilitismo que se tem instalado ao longo dos sucessivos governos acaba por ser prejudicial para o próprio país, pois é essa mesma cultura de facilitismo que acabará por vigorar nas décadas seguintes. Tratar da mesma forma quem vai às aulas e quem não vai, apenas com fins estatísticos, é uma das falácias que, graças a algum bom-senso, acaba por cair.

Caso de estudo

Começou por dar o salto qualitativo e passou de equipa de competições europeias para se intrometer no meio dos tradicionais três grandes. Na última época, discutiu o título até à última jornada e, não fosse a grande época do Benfica, teria mesmo sido campeão. O corolário destes últimos anos de sucesso foi o apuramento para a Liga dos Campeões, hoje conseguido. O percurso recente do Braga é notável, mas nem por isso inédito. O que está hoje a acontecer aos arsenalistas dá invariavelmente uma sensação de déjá vu, bastando olhar 10 anos para trás e para o caso do Boavista, que se batia de igual para os grandes e hoje corre o risco de fechar. Olhando para estes percursos semelhantes não deixa de vir à cabeça a ideia de que ao Braga bastará dar alguns passos maiores que a perna para ir pelo mesmo caminho. Temos portanto um caso de estudo para os próximos anos.

As sombras

Este início de época do Benfica veio trazer ao de cima um síndrome que parecia afetar o Sporting nos mais recentes anos em que foi campeão, precisamente o de sucumbir à pressão de trazer na camisola o facto de ser o vencedor da última edição da prova. A saída de Di Maria e Ramires - que, até agora, não foram devidamente substituídos - não explica totalmente a situação. Ao que parece, têm subido ao relvado apenas as sombras da última temporada - David Luís e Luisão ainda macios em algumas situações, Javi Garcia sem poder de choque, Cardozo a ver as bolas a passar-lhe à frente - , num cenário de onde destoam Fábio Coentrão e, aqui e ali, Saviola. O caso de Roberto mais não é de a cristalização de todo o cenário da equipa: um grande jogador na última temporada, que parece ter desaprendido de jogar desde que a atual época começou. Pelo menos emoção é o que não nos vai faltar para o resto da época.

Inception

De "Inception", ouvi o melhor e o pior: desde as referências ao género híbrido do fantástico/thriller/ficção científica até ouvir alguém dizer que não tinha visto nada de tão mau nos últimos 20 anos. Estou mais próximo dos que consideram o filme mais próximo do genial do que do fracasso. A materialização em filme de algo que, convenhamos, não é fácil de abordar num filme - falo dos sonhos - é obviamente uma missão com dose de risco e facilmente suscetível de falhar, o que não me parece acontecer neste filme. Aqui, o sentido dos sonhos e a relação entre o que o sonhos e o que temos bem arrumado no nosso inconsciente conseguem traduzir-se num filme que conjuga bem a vertente espetáculo e pôr o espetador a pensar. E Leonardo di Caprio parece ser cada vez mais um actor especializado em papéis envolvendo personagens com backgrounds problemáticos.

À laia de telenovela brasileira

A silly season passa a ter mais um tema quente, depois dos fogos e do início do campeonato futebolístico. Nem mais nem menos do que o estranho caso de uma senhora que esteve envolvida com um milionário brasileiro, envolvendo um português ao barulho. O caso passaria relativamente despercebido, não fosse o português envolvido ser Duarte Lima, advogado e político com um passado relativamente incólume em termos de trafulhice de qualquer espécie. O pacato e respeitado cidadão vê-se de repente envolvido numa trama envolvendo heranças, idosos ricos com casos extra conjugais e cadáveres deixados à beira da estrada, o que, somado o facto de tal se ter passado no Brasil, nos dá uma sensação de déjà vu a telenovela brasileira em que só se descobre o que realmente aconteceu no fim (alguém se lembra do assassinato de Juca Pirama em Sassá Mutema?). É caso para dizer que Duarte Lima se vê de repente transformado em Lima Duarte.

Os velhos fantasmas


Já a derrota na Supertaça dava o aviso de que esta época dificilmente o Benfica estaria ao nível da última temporada. O jogo de hoje com a Académica trouxe ao de cima os velhos clichês benfiquistas, no bom e no mau - "O Coentrão farta-se de correr", "O Cardozo passa a vida a dormir", etc - e ressuscitou velhos fantasmas adormecidos na última época, de tempos em que jogar em casa não era necessariamente sinónimo de vitória e onde a entrega - falo apenas da segunda parte - raramente cola com clarividência. Junte-se o facto inegável de a equipa principal estar mais fraca do que o ano passado e é fácil concluir que esta época será certamente diferente da última.

Tátú

Ontem, num centro comercial lisboeta, vi uma senhora na casa dos 30 envergar uma tatuagem do calimero na omoplata. No mesmo local do corpo onde costumamos ver tribais, nomes de pessoas, letras chinesas e afins, lá aparecia o nosso herói de infância com uma pequena casca sobre a cabeça. Reconhecendo e respeitando obviamente o direito de qualquer cidadão tatuar o que bem entende nas partes do corpo que quiser, às vezes custa-me estabelecer a distinção entre a liberdade de expressão individual e a simples parvoíce.

Saltar

Pela primeira vez desde que ando pelas redes sociais, vi-me de repente metido no meio de uma embrulhada envolvendo redes sociais e trabalho, que só me fez lembrar aquelas notícias que por vezes nos provocam alguma incredulidade, tal a forma como meia dúzia de frases ditas por terceiros saltaram do meio virtual para a secretária do trabalho. É imperioso reconhecer que as redes sociais são um pouco mais do que uma página que nos surge pelo computador dentro e que ainda estamos a aprender a usá-las da melhor maneira. Por enquanto, só me apraz dizer que é fundamental criar uma espécie de versão 2.0 do velho ditado do "Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque" mas envolvendo a Internet ao barulho.

O show do Cleveland


Possivelmente não terei falado no meu blogue da minha predileção pela grande série Family Guy, que infelizmente apenas os afortunados com ligação a televisão por cabo têm o prazer de conhecer. Não falarei por agora, dando apenas o salto a The Cleveland Show, série que tenho acompanhado religiosamente desde que começou a ser emitida na Fox. Desconheço se outra série televisiva no passado deslocou uma personagem para outro programa autónomo, mas não deixava de ser um tiro no escuro tentar que a figura que está longe de ser a mais carismática no Family Guy consiga ser protagonista de uma série a solo. Não tendo o brilhantismo da "série mãe", só o facto de uma série como estas ter visto a luz do dia só mostra que Family Guy é um dos grandes fenómenos de cultura popular a que temos o prazer de assistir hoje em dia.

Enxurrada

Quis o destino ou, vá lá, o calendário que saísse da Polónia na última sexta-feira à tarde. O tempo estava meio farrusco na cidade onde passei as últimas duas semanas e em Varsóvia estariam uns 30 graus e céu praticamente limpo. Foi por isso com alguma surpresa que recebi a notícia que, apenas algumas horas depois, fortes chuvadas varreram o país, causando inundações, danos materiais e até mortes. No dia em que me pedirem um exemplo do que é a Lei de Murphy ao contrário, citarei este pequeno episódio. E, vá-se lá saber porquê, quando pensei em inundações na Polónia, a primeira coisa que me vem à cabeça são uns bêbados de rua a serem levados pelas enxurradas ainda com uma garrafa de vodka na mão...

Meias brancas

Uma das mais pitorescas observações que tenho feito desde que cheguei à Polónia prende-se com o fosso de género na população. No mesmo país em que as mulheres conseguem ser fiéis representantes do velho mito da beleza feminina de Leste, não deixa de ser paradoxal assistir ao que se verifica no universo masculino: homens de meia branca a passear cães perigosos, a beber cerveja em qualquer canto e com um gosto para indumentária duvidoso. Este fosso parece constituir, tanto quanto me apercebo, uma verdadeira janela de oportunidade para os homens vindos de fora e com um tom de pele mais escuro do que as cores das meias que os polacos orgulhosamente trazem calçados.

Quem se insurge contra o fenómeno do alcoolismo em Portugal deveria dar aqui um salto. Pelo menos em Lodz, cidade onde tenho estado, é comum ver pessoas a beber nas ruas, tanto cerveja como vodka, e não exagero se disser que até já vi pessoas a serem levadas em ombros devido ao excesso de álcool. A velha bebedeira moderada dos portugueses, com vinho e cerveja, parece coisa de amadores em comparação com a vodka bebida como se fosse água, num país onde há sérias restrições à venda de álcool etílico e onde a porrada entre homens bêbados faz parte do cenário de caos urbano.

De resto, nada de mais. Tem chovido a maioria dos dias em que cá tenho estado e pergunto-me se o mês de Agosto também passa por aqui.