Em trânsito

Uma das minhas lacunas a nível de currículo profissional pode ser a ausência de locais onde tenha ido em trabalho. O facto de ter tido empregos essencialmente sedentários é obviamente uma razão válida para isso, o que, embora não seja motivo de vergonha, me coloca em posição de desvantagem em relação a outras pessoas que conheço e dizer que a última deslocação em trabalho que fiz foi ao Monte de Caparica há meia dúzia de anos não é o melhor dos cartões de visita.


A empresa onde trabalho lá entendeu que seria forma de quebrar esta ausência de deslocações em serviço e fez questão de me mandar para longe.





Por estes dias, ando por aqui. Menos de 20 graus e chuva, enquanto Lisboa torra em 40 graus de temperatura

"Call me"



A história da música pop dos últimos 30 anos dificilmente ficaria completa sem abordar a rivalidade entre Samantha Fox e Sabrina Salerno, figuras curiosamente mais próximas - desconte-se, vá lá, a nacionalidade e os respetivos traços fisionómicos associados ao país de onde vinham - pelo género musical, pelos atributos físicos e por encarnarem de forma mais ou menos glamourosa um certa corrente deliciosamente pirosa que as divas dos anos 80 encarnavam. Essa rivalidade, como a maioria das existentes na música, seria certamente mais empolada pelas máquinas à volta das artistas do que pelas próprias, acabaria por ficar. Até aos dias de hoje, em que alguma alma iluminada optou por meter as duas na mesma música e a dançarem juntas no mesmo videoclip, provando que a mesma indústria que cria rivalidades entre artistas também é capaz de os juntar décadas depois. Parece que não é só na natureza que nada se perde e tudo se transforma.

O polvo

Ao contrário da maioria do público futebolístico, suscita-me mais preocupação do que alegria o fenómeno do polvo Paul, que adivinha os vencedores dos jogos de futebol. Essencialmente porque tem a arrogância de provar que andámos a desperdiçar anos e anos com estudos de tácticas e jogadores, jornalismo desportivo ou comentadores encartados para chegarmos à conclusão de que existe um polvo que tem dotes de adivinho - corrijam-me se estiver enganado, mas julgo que nem o primeiro nível do curso de treinador este cavalheiro deve ter - e que destrói todo este saber adquirido como se de um castelo de cartas de tratasse. Afinal de contas, um simples molusco consegue condensar mais poderes de análise e previsão de resultados do que o maior especialista vivo em triangulações, transições defesa-ataque, zonas de pressão ou poder de fogo na área de rigor. Para quem cresceu a ter como referências Gabriel Alves, o Professor Neca ou Luís Freitas Lobo é triste perceber que podia ter aprendido se tivesse um aquário com um polvo com nome de pessoa lá dentro.

Grooveshark

Sem querer vir aqui ao blogue fomentar qualquer tipo de distração extra-profissional durante o horário de trabalho, mas vale a pena ir ao Grooveshark. O conceito não é novo, mas está disponível: o site possibilita ouvir on-line os mais diversos mp3 espalhados pela Net. Sabendo-se que estes serviços não são pródigos em legalidade, vale a pena passar por lá enquanto ainda funciona.

Em jeito de balanço

Em jeito de balanço do Mundial que ontem terminou, apraz dizer que este se terá caraterizado pela previsibilidade. Venceu aquela que era a melhor equipa da Europa, pergaminhos que poderiam ser suficientes para vencer a prova, caso Brasil e Argentina não se apresentassem ao melhor nível. Entre as quatro seleções que chegaram ao fim da prova, surpreende talvez o Uruguai - com óbvios méritos nas quatro linhas, mas importa verificar que teve alguma dose de sorte por não ter calhado com nenhum dos pesos-pesados - e a Holanda - por ter passado por cima da velha ideia de que só tinha grandes jogadores e não uma grande equipa. Mesmo as expetativas quanto às grandes desilusões da prova não andaram longe da verdade - ninguém esperaria a Itália a repetir a façanha de há quatro anos e a tragédia da França já vinha sendo anunciada - , sendo que aquelas equipas de quem se esperaria um pouco mais - Portugal, Brasil, Inglaterra, Argentina - saíram derrotadas, não por tanto por falta de competência, mas por terem tido a azar de levarem pela frente com os rolos compressores da prova. Tirando Ozil, Muller e aquele ponta-de-lança do Gana cujo nome não me ocorre, não houve jogadores menos óbvios a afirmarem-se - as chamadas revelações da prova - e, à exceção de Forlan e Sneijder, também não se pode falar em jogadores que tenham de certa maneira levado a equipa às costas. Tudo isto prova que o Mundial se faz sobretudo de equipas e não de jogadores em particular e o facto de as equipas que chegarem à Final serem sobretudo equipas de passe e jogo coletivo em detrimento de grandes momentos individuais. Em suma, o futebol está mais para táticas e intérpretes de jogo do que para os artistas da bola. Daqui a quatro anos há mais.

Alive



O dia de ontem no Optimus Alive (o único a que assisto no festival), para além dos bons concertos - Moonspell iguais a si mesmos, Alice in Chains a recuperarem bem o espírito do som que os fez tornarem-se conhecidos, som vibrante dos Kasabian e a apoteose com Faith no More e o seu grande frontman chamado Mike Patton - teve o mérito de funcionar um pouco como aquelas festas temáticas dedicadas a determinadas décadas e à música que neles se fez, neste caso aos anos 90: via-se que quem lá estava conhecia as músicas que iam rodando e que por algumas delas ficou marcado e com a atenuante de hoje em dia já não ficar marcado por músicas como naquele tempo, havendo uma celebração da década em detrimento de qualquer marca do tempo presente. Com efeito, todo o espetáculo parece ter sido encomendado para aquela vaga geracional nascida na segunda metade da década de 70 ou nos primeiros anos da década seguinte: Faith No More recapitularam as canções que os tornaram conhecidos nos anos 90, os Alice in Chains fizeram uma espécie de sanduíche entre canções dos primeiros álbuns com músicas novas que criaram compreensivelmente um menor entusiasmo, os Moonspell que fizeram questão de assentar boa parte do alinhamento nos dois primeiros discos lançados em 95 e 96.

Para o púbico cujo "core business" musical se centra nos anos 90 parece, portanto, haver uma boa notícia: a crise da venda dos discos que leva as bandas cada vez mais à estrada acabará por levar por arrasto as bandas que julgávamos remetidas apenas para as memórias da música, caso dos Faith no More. E é também evidente que esse público-alvo já não vive com as angústias financeiras de há 15 anos provocadas pela magra mesada, podendo dispender dinheiro em concertos cada vez mais caros. Esse público estava ontem no Passeio Marítimo de Algés: gente que apesar já ter idade para ter família constituída e empregos respeitáveis, ostentava t-shirts das bandas que viu passar em palco.

Em sumo, e quanto a mim falo, houve uma certa carga simbólica recheada de algum revivalismo enquanto via subir ao palco aquelas bandas (à excepção de Kasabian) que comecei a ouvir antes dos 15 ou 16 anos. Olhando à minha volta, posso dizer que o sentimento não seria muito diferente. Mesmo aquelas pessoas que reencontrei naquele concerto são pessoas que não via desde o tempo em que não tinha que me preocupar com empréstimos à habitação ou contratos de trabalho. É olhando para nós mesmos e para momentos como estes que engolimos a seco: o tempo está também a passar por nós.

Meia-final

Antes da meia-final de hoje, devo confessar que estava à espera que fosse a Alemanha a passar à final. Pela simples razão de que, até às 19 e 30 de hoje, achava que seriam os alemães a levantar a taça no próximo domingo. Quem viu a forma como cilindraram Inglaterra e Argentina, conjugando um ataque demolidor com eficiência defensiva, não daria grande azo a conceber outro vencedor para a prova. O jogo de hoje mostrou que, por vezes, a forma como se olha para o jogo antes de entrar em campo conta muito: basicamente, o que se viu foi a Espanha a trocar de forma pachorrenta a bola, a lembrar uma jogatana de amigos numa tarde de praia, à espera das famosas aberturas ou linhas de passe, perante uma Alemanha na expetativa de poder lançar contra-ataques de três ou quatro passes, que a Espanha inteligentemente soube anular.

Quanto ao jogo da Final, terá o dado curioso de ter duas equipas que jogam de maneira relativamente parecida - os holandeses também gostam de se entreter a passar a bola uns aos outros, a fazer lembrar o jogo da rabia que se costumava jogar quando eu era garoto - o que permite antecipar uma partida interessante, sabendo que uma das duas equipas terá a determinada altura de abdicar deste princípio. Pelo meio, um consolo: fomos eliminados do Mundial por uma das duas atuais melhores equipas do Mundo, o que alivia um pouco o sentimento de derrota.

Laços de ternura

Ele : "Olá, amorzinho!"
Ela: "Amorzinho, o car...! Abre lá a m... da porta , ó cab...!"

(ouvido em via pública, quando um casal de namorados se encontra junto ao carro)

Trabalho de casa

Uma das nódoas no percurso do Benfica no último campeonato prende-se com as falhas de Oscar Cardozo no momento da marcação dos penáltis. Não na marcação de penáltis no sentido amplo da palavra, mas quando estes surgiam em momentos de viragem de resultado - leia-se, quando a equipa estava empatada ou em desvantagem - , uma situação irónica e com um quê de Lei de Murphy. Ontem, os benfiquistas que viam o jogo entre Paraguai e Espanha tiveram uma óbvia sensação de dejà vu, quando presenciaram Cardozo a falhar o penálti que daria a vantagem no jogo, momento que viram algumas vezes em jogos da última temporada. Um selecionador que manda Cardozo marcar um penálti num jogo desta envergadura, tendo em conta os factos de que falei acima, é alguém que não anda a fazer o trabalho devidamente. Também aqui se ganham ou perdem eliminatórias.

O veto à venda da Vivo

Se é certo que para nós, consumidores, os negócios das empresas portuguesas lá fora acabam por ser um pouco irrelevantes, não é um pormenor para a economia nacional que as empresas portuguesas tenham projeção além-fronteiras e que isso até possa ajudar a sua atividade dentro de portas. Isto a propósito do chumbo do Estado à venda da Vivo. O facto de a Portugal Telecom poder vir a perder a posição na Vivo , e por inerência voltar a ser apenas uma empresa com dimensão nacional, pode ser entendido como uma razão plausível para que o negócio tenha sido chumbado. Se ainda existe uma "golden share" na empresa, significa que ainda existe uma esfera de decisões que pode ser tomada pelo Estado e não vale a pena as queixas dos accionistas que ontem vieram a público lamentar-se de a oportunidade de fazer uma boa maquia ter ido por água abaixo. Afinal de contas, zelar pela maior empresa portuguesa lá fora talvez seja mais importante do que pensar nas somas dos accionistas. Esta novela não fica por aqui, mas este é o ponto em que a coisa está.