Em tempos, Sacavém era uma terra respeitada. Terra pacata a poucos quilómetros de Lisboa, tinha, até há poucas décadas, na sua famosa fábrica de louça uma espécie de embaixador, que fazia com que por todo o país o seu nome fosse citado quando se falava das mais diversas cerâmicas. O fim da sua produção cerâmica significou para Sacavém o mesmo que o término do TV Rural significou para a agricultura portuguesa: o princípio do seu fim. Não que Sacavém tenha desaparecido do mapa - até aumentou a sua população - mas começou a ganhar uma certa aura de decadência. As antigas casas de fados deixaram de o ser para se tornarem tabernas pouco higiénicas - passe a redundância - a servirem vinho de qualidade duvidosa, os prédios de classe média começaram a ser rodeados por bairros de barracas, o espírito de vila foi substituído pela insegurança provocada por jovens com andar à organgotango e aquilo que era uma vila com alguma homogeneidade social, composta por uma certa classe média operária oriunda essencialmente de outros pontos do país, acabou se tornar numa espécie de babel, onde há barracas e há apartamentos para uma classe média alta, ironicamente instalados numa urbanização situada nos antigos terrenos da antiga fábrica da loiça.
Por estes dias, ouvimos falar de Sacavém nos meios de comunicação social, por causa das enchentes provocadas pelas chuvas fortes. Há quem fale em fenómenos meteorológicos anormais, em zonas comerciais localizadas abaixo do nível do mar e que são invariavelmente afetadas, na falta de prevenção e demais clichês. A mim, ninguém me convence destes argumentos veiculados pelos media. Face à degradação das últimas décadas, parece-em que estas enchentes cheiram mais a castigo divino do que a outra coisa qualquer.

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