Subsídios para a compreensão da década 2000

Se me pedissem para escolher os momentos da década que por agora finda, escolheria os dois mais trágicos: o 11 de Setembro de 2001 e o Tsunami no Oceano Índico em 2004. O primeiro por reavivar, em moldes mais modernos, a tese do confronto de Civilizações com o inerente maniqueísmo em tornos dos bons e dos maus da fita. Para além disso, trouxe também consigo o sentimento de medo face ao terrorismo, criando um universo híbrido onde este é associado ao mundo muçulmano. O Tsunami de 2004 teve, em termos estatísticos, um impacto maior do que o 11 de Setembro, e em plena década marcada por avanços tecnológicos assinaláveis - alguém imaginaria há 10 anos a Internet como a temos hoje? - demonstrou que esses mesmos avanços pouco ou nada são se comparados com a força da Natureza.

Em Portugal, o acontecimento que me parece ser mais relevante foi o Euro 2004. Provavelmente por ter sido o único momento de união da Nação numa década que não foi propriamente feliz, com pouca estabilidade política - 5 governos em 10 anos - , crescimento económico irrelevante e com o agudizar das diferenças sociais. Uma pequena nota para a esfera algures no meio entre o "Nacional" e o "Internacional", ou seja, a União Europeia, não sendo exagerado dizer que o alargamento para 25 países alterou a ideia de um espaço centrado na Europa Ocidental e ajudou os países de Leste a livrarem-se em definitivo do fantasma do Comunismo.

50 anos de Metropolitano

Pelo Metropolitano de Lisboa também se conta um pouco da história da capital. Começando por ser uma simples ligação a partir dos Restauradores com bifurcação na Rotunda, variando depois para Entre Campos e Sete Rios, com 11 estações, foi fazendo a evolução tentando acompanhar as novas dinâmicas da cidade e zonas limítrofes até chegar às atuais 46: o surgimento de grandes focos habitacionais em Alvalade ou na Alameda durante o Estado Novo, a urbanização da zona de Benfica, os grandes pólos universitários como o Técnico e a Cidade Universitária, a Expo 98 ou o crescimento urbanístico em Odivelas e Amadora. E qualquer pessoa que utilize de forma mais ou menos quotidiana o Metro vai também construindo a sua história de relação com a cidade também baseada nas estações que vão surgindo, que mudam de nome ou alteram a face. Sendo considerado uma despesa excessiva para o erário público por alguns sectores face aos seus elevados custos, não é menos verdade que tem o mérito de conseguir ser o mais eficaz concorrente à utilização do automóvel na cidade, com evidente benefício em matéria de mobilidade e de trânsito. O Metropolitano de Lisboa assinala hoje 50 anos.

Relativizar


Nos últimos tempos, graças aos méritos da TV Box e das emissões do canal Hollywood, tenho visto alguns filmes dos anos 80, sobretudo aqueles que me recordo de ouvir falar como sendo algo com um grande impacto e que não podia ver porque não tinha ainda idade para isso. O problema é que acabo sempre por me esquecer de um dado relevante, que é o da passagem do tempo, que dá uma percepção diferente do que visto na altura em que foram feitos. Por exemplo, sempre imaginei o "Terror na Auto-Estrada" como a reencarnação do demónio sob a forma de uma cassete VHS com o intuito pedagógico de alertar para os perigos das boleias e mais não é o do que um mix de filme de terror com suspense, que hoje passaria por um série B. Voltando até atrás no tempo, a minha curiosidade em ver "O Exorcista" surgiu depois dos relatos de pessoas a acorrer a urgências de hospitais após ver o filme, mas rapidamente me apercebi que todos já vimos algo mais violento do que aquilo. No fundo, não há nada como o tempo para relativizar as coisas.

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superfm mau ambiente
parodia do trabalho de contabilista
jogos virtuais que aparece o boneco
marketing mix das conservas ramirez
O Telefone Chora - cantor de portugal
electricidade colectânea dj bobo
lacoste falsa tem crocodilo bordado
blogspot moscavide

Nobre Povo

Nesta altura em se pode encontrar de tudo na televisão, sabe sempre bem encontrar aqui e ali bons programas feitos por cá. Falo do programa "Nobre Povo", que passa na RTPN, destinado a dar a conhecer os mais diversos casos de pessoas que trazem consigo estórias com o cunho da humanidade e que demonstram que, apesar do clima menos optimista que hoje em dia se vive, ainda vale a pena acreditar no povo português. Até hoje não tive oportunidade de ver todos os programas, mas daqueles que vi, houve alguns que me chamaram a atenção: o jovem que geria uma livraria de poesia apenas pelo gosto pela arte e sem ter sequer a contabilidade organizada para saber se o negócio dava ou não lucro, os voluntários que há duas décadas visitavam assiduamente os reclusos em prisões no Porto ou o ex-emigrante na Venezuela que construiu uma espécie de Disneylândia com influências de Dali como forma de combater a tristeza pela morte de um filho. As reportagens incidem por norma pelo Grande Porto e têm o mérito de não cair no paternalismo ou na troça face aos protagonistas. A prova como não são precisos grandes meios técnicos ou grande espalhafato para se fazer bons programas de televisão.

Resolução

A minha resolução natalícia para este período festivo em que estamos é relativamente simples: responder à habitual avalanche de sms a desejar boas festas apenas quando fôr evidente que tal nos foi diretamente dirigido e não incluído numa distribution list em que a mesma mensagem é enviada para nós, para o colega do call center no tempo da faculdade, para o tipo da mercearia da rua de baixo ou para uma amiga brasileira. Ironicamente, caio exatamente no mesmo erro lanço daqui o meu apelo sem me dirigir a ninguém em especial, mas sim ao vasto auditório como se este fosse um só e não composto de n pessoas diferentes: um bom Natal para todos.

A Instituição do Natal

Todos os anos surge invariavelmente a velha instituição do Natal. Não me refiro ao Pai Natal ou às luzes manhosas vendidas em lojas chinesas para colocar nas árvores de Natal. Falo evidentemente do Ferrero Rocher. O chocolate que demonstra que também no ramo da lambusice se pode ser conservador: há mais de duas décadas que o sabor continua intacto a fazer lembrar o Nutella para barrar, o anúncio que mantém a velha relação do Ambrósio com a patroa, o prateado da embalagem que remete para o universo do pequeno luxo com um ligeiro toque kitsch a que todos temos direito. Poucos serão aqueles que ao longo dos natais não contaram pelo menos com uma caixa de Ferrero Rocher. Acaba por ser uma solução de último recurso quando a imaginação e a carteira não dão para mais, mas é uma opção fiável: não há quem não goste e ainda estará para vir o primeiro que deixou que o Inverno passasse e os tenha deixado estragar. Ninguém dirá que a melhor prenda que recebeu até hoje foi uma caixa de ferreros, mas pouca gente irá lamentar a sua sorte quando os receber nesta época natalícia. Face à sua fiabilidade enquanto prenda, não é arriscado dizer que estes bonbons estão para uma lista de prendas um pouco como as utilities numa carteira de acções: um valor que se pode considerar seguro.

Sistema respiratório

Fui apanhado na fúria do vírus da gripe sazonal - pelo menos, assim o espero - que vai massacrando os sistemas respiratórios da Nação e engrossando as vendas das marcas de lenços de papel: basta ver qualquer espaço em que estejam presentes mais de cinco pessoas. Ainda assim, o embate não foi forte ao ponto de me mandar para o estaleiro. No meio deste precalço, prevalece um dado de eficiência de gestão doméstica: os ilvicos que ando a consumir expiram o prazo no final do presente mês. Visto assim, é melhor a gripe aparecer agora do que em Março.

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desinteressante sinonimo
o perfil do europeu
"auto-estima na tv"
como escrever mensagens com sinais no facebook
videos.de.vutose ;vat,am/as///a
lei que foi aplicado a pasta medicinal couto
grupo força suprema afinal era grupo criminoso
que fazer quando aparece * numa amostra estatistica

Com licença


Uma vitória sobre o Porto, num clima de pancadaria a recordar velhos clássicos de há década e meia atrás, com decisões meio dúbias da arbitragem pelo meio. Era difícil desfecho melhor para este clássico. A Nação benfiquista tem razões para ter boas expetativas para o que se segue do campeonato.

Asas

Uma das maiores manifestações da cultura popular dos últimos anos em Portugal - o Red Bull Air Race - vai mudar-se para Lisboa. A notícia não é motivo de orgulho para Lisboa e para o país. Em primeiro lugar, porque a enorme agitação que se vive no Porto aquando do evento muda-se de armas e bagagens para Lisboa, o que só beneficia os comerciantes. Em segundo lugar, porque o facto de antes se fazer noutra cidade que não a capital dava um pequenino contributo para equilibrar a balança em termos de grandes eventos. Em terceiro lugar, talvez o mais grave, porque parece que houve intervenção do Turismo de Lisboa nesta decisão, o que obviamente não terá sido feito de borla e que suscita a interrogação, um pouco à laia de argumentário taxista, de que se não há dinheiro para hospitais e escolas, porque razão este passa a existir para uns tipos fazerem umas piruetas no ar. Resta torcer para que o evento esteja longe do almejado sucesso.

Encravado no tempo



Se é certo que há músicas que encaixam que nem uma luva às décadas em que apareceram e há também outras que surgiram completamente fora de tempo, é necessário também recordar aquelas cujo infortúnio foi o de terem sido editadas na transição das décadas. Nestes períodos complicados de transição de década, essa é uma memória que inevitavelmente assalta quem tem um mínimo de interesse por música. Há 10 anos, algumas das bandas que preenchiam as playlists das rádios ou as lojas de música eram, por exemplo, os Guano Apes, os Lamb, sem esquecer a grande vaga de fundo do Nu-Metal. Tiveram o azar de verem os "picos de carreira" ocorrer em período de transição e acabaram por não ver os nomes associados a décadas específicas.

Por estes dias, vou-me recordando de uma música verdadeiramente demolidora surgida há 10 anos: "Freestyler", dos Bomfunk MC's. Vindos da Finlândia, lançaram um disco com uma série de boas músicas , mas depois disso pouco se ouviu falar deles, algo relativamente comum às bandas de música electrónica. Esta música tinha o condão de ser relativamente transversal na cultura pop: tanto encaixava na playlist de boa parte das rádios, como numa noite de rock duro do Rockline, sem esquecer que até à televisão portuguesa chegaram a ir. E não será difícil encontrar quem tenha ficado absolutamente viciado neste tema.

Olímpiadas no sofá



As simulações de desporto, se exceptuarmos as anuais edições de jogos de futebol ou mais um outro título, não são propriamente aquelas que ocuparão os tops de vendas ou constam nas wishlists da maioria das pessoas. Mais ainda se se tratar de uma simulação de algo como os Jogos Olímpicos, em que o jogador é parte ativa nos 100 metros, no tiro ou na ginástica, citando as dezenas de provas olímpicas disponíveis. Jogos destes fizeram história no Spectrum e ficaram mais conhecidos pelos teclados que ajudaram a inviabilizar - para quem não sabe, a velocidade ou a força são proporcionais à rapidez no clicar das teclas - do que pelas grandes memórias que trouxeram. Tenho, no entanto, para mim, enquanto apreciador praticamente apenas do lado Arcade dos videojogos, que é aqui cumprida na íntegra a função de entretenimento de forma despreocupada. Eu, que passei animados serões de paródia em minha casa a jogar Atenas 2004 na PS na companhia de mais dois maduros, teria que ter mais cedo ou mais tarde o seu sucedâneo, lançado no último ano. O jogo é, porventura, mais do mesmo, com mais jogos e melhores gráficos. O comando precisa de ser mais rotinado para a natação ou as provas de barreiras, mas nos 1500 já sou um expert. Tudo por pouco menos de 10 euros na Amazon.

"Para o Natal de presente eu quero que seja..."

Não foi na época natalícia que recebi até hoje as melhores e mais significantes prendas, mas em variedade é inquestionável que me tem sido um período profícuo. Por entre prendas mais ou menos marcantes ou mais ou menos úteis, vou desenrolando da memória quase a história e os diferentes estádios da minha existência a esses mesmos presentes natalícios: os peluches, os brinquedos, os pequeninos jogos eletrónicos, os exemplares da literatura infanto-juvenil, os CD, os perfumes, a roupa, as utilidades para a casa.

Se é certo que não me posso, de maneira alguma, queixar cheguei ontem à conclusão que me falta a mais emblemática das prendas de Natal. Não falo, evidentemente, das meias de lã, mas sim do cabaz de Natal. Com muita pena minha, evidentemente. Parecendo algo um tanto um quanto antiquado ou datado - o que, por si só, já lhe acrescente valor - tem o mérito de conter produtos não só úteis mas com uma variedade assinalável, o que torna impossível qualificá-lo como uma má prenda. Dificilmente alguém se pode queixar por receber, de uma assentada, garrafas de azeite, queijos, doces para barrar no pão e um pequeno mimo gourmet. Para além disso, nos dias difíceis que correm, o cabaz de Natal traz consigo a ideia pedagógica de que as melhores prendas são aquelas que devem ser usadas. A ideia para moralizar a Nação em período natalício seria encher este país com 10 milhões de cabazes de Natal.

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hi5 catia trocado

simpatias e orações para abortar

Jel vende caixões a Velhos

hi5...fadistas

filme de um barbeiro que termina com uma parada de 50 snod de uma cidadezinha dos estados unidos

alguma coisa sobre fernando mendes

como foi desenvolvido esteretipo do vendedor de carros

leide boy

forca suprema ja sairam da pj?

Vampiros e lobisomens

Parece que um dos fenómenos adolescentes que está a dar neste momento é o afamado "O Crepúsculo" (ou "Twilight"), em que é protagonizada uma história de amor envolvendo uma jovem e um vampiro. Uma história de amor tecnicamente impossível, portanto, e que é um filão inesgotável para bons sucessos de vendas. Do que andei a investigar, aquilo é coisa para de repente aparecerem uns lobisomens no meio da história, o que, parecendo que não, lhe dá um ar mais sofisticado. Fico obviamente feliz por os adolescentes de hoje poderem ver filmes de lobisomens em condições. Há 20 anos atrás, um tipo queria ver filmes de lobisomens e o mais longe que podia ir dentro do cinema mainstream seria "papar grupos" como o "Lobijovem".


Filigrana

Em menos de uma semana, ouviram-se no Parlamento acusações de "histérico" e "palhaço" no Parlamento. Faz lembrar aquelas discussões cá fora em que, à falta de argumentos, o interlocutor que se pretende atingir é atingido na sua masculinidade ou então a sua progenitora é apelidada como sendo alguém com uma profissão pouco digna. O atual ambiente no Parlamento é obviamente mais propício ao insulto e à discussão viril do que à obtenção de consensos. Parecendo mais ou menos certo desde a noite das eleições legislativas que não é de esperar que o presente Executivo dure até 2013, o que faltar em grandes soluções para o país irá certamente ser compensado pela mais pura filigrana do insulto.

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"imitar um brasileiro"    
efeitos vinho branco nos sistemas excretores
barrerito preso acidente avião
carta de empilhador é obrigatorio
programaçao de rtp5
significado de lei do marff
videos-lesbianas.com.ar
quer ser feliz pergunte

Sorteio

Uma selecção com boa parte dos melhores "intérpretes de jogos do Mundo" e um candidato histórico e natural a qualquer competição internacional, outra que está pelo menos no top 3 das selecções de África e que jogará no seu continente e ainda outra que, à falta de melhores recursos, é uma fiel intérprete da tática de retranca e dos cinco defesas, um sistema que encaixa pouco na forma de jogar e Portugal. Só por manifesto exagero patriótico ou desconhecimento futebolístico é que alguém poderá dizer que o sorteio para o próximo Mundial nos foi favorável ou que são favas contadas para seguir em frente.

A fuga

Qualquer pessoa com um conhecimento mínimo do mundo menos urbanizado deste país - os chamados "meios pequenos" - conhece ou já ouviu falar de padres que contornaram o celibato imposto pela sua função e decidiram deixar sementes neste mundo. Em suma, o que não falta pelo país são filhos, netos ou bisnetos de padres, sendo que em muitos locais essa é uma situação conhecida ou mal camuflada - por exemplo, no lugarejo de onde vem uma das minhas costelas beirãs, o padre foi parte ativa na vinda ao mundo de quatro rebentos, aos quais chama carinhosamente de sobrinhos. Isto a propósito do jovem padre que abandonou o sacerdócio para fugir com uma das suas paroquianas. Passe o facto de estar um pouco polvilhada de história de romance hollywoodesca, não é menos verdade que acabou por ser um pouco mais coerente do que os padres que lá vão dando uma no cravo e outra na ferradura e alimentando um certo inconsciente popular.

Bruno Aleixo na rádio



Se é certo que as originais animações dão um colorido interessante a Bruno Aleixo e seus amigos, também não é menos verdade que a personagem não fica desprovida de piada quando apenas se recorre ao som. Ou visto de outra forma, para quem anda a ressacar dos vídeos, é melhor ouvir os programas de rádio de que coisa nenhuma. A partir de hoje, Bruno Aleixo tem direito a tempo de antena nas emissões matinais da Antena 3. A primeira emissão promete, com acusações de "drogado!" a tudo quanto é gente. Quem não pode ouvir em direto, poderá ouvir os programas aqui.

Especialidade

Uma das mais interessantes palavras do nosso léxico é a palavra "Especialidade". Isto porque é uma palavra que, sendo supostamente utilizada para realçar algo de bom e de especial, também tem por detrás um sentido de realismo. Qualquer restaurante afixa orgulhosamente as suas especialidades nos menus ou nas suas vitrines, qualquer um de nós pode gabar-se de saber fazer determinada coisa, um médico faz disso profissão, um comentador vai à televisão para ser pago para comentar assuntos, desde que esses se enquadrem na sua - lá está - especialidade.

Se é certo que a palavra traz consigo uma intenção de realçar algo de bom, não é menos verdade que há um certo humanismo na sua utilização. Se há algo que podemos associar a nós próprios como especialidades, significa que há um naipe gigantesco de outras coisas nas quais seremos normais, medíocres ou até maus. Todos nós conhecemos tipos absolutamente excepcionais em determinadas dimensões da vida, mas catastróficos noutros: o especialista em astrofísica sem o mínimo talento para levar mulheres para a cama, o extraordinário condutor de carros em meio urbano incapaz de cozinhar, o eficiente técnico de informática com pouca aptidão para desporto, o maior galã num raio de 8 km sem os mínimos conhecimentos de História de Portugal. A lista é, portanto, longa. Por esta altura do ano, período de avaliações em meio laboral, vêm invariavelmente à liça os aspetos em que somos extraordinários, vindo infelizmente por arrasto as nossas maiores falhas, que anualmente prometemos que serão alvo de melhoria, o que normalmente não se concretiza.

Daí ser extraordinário a utilização da palavra especialidade em meios comerciais. Por exemplo, no caso dos restaurantes. Um estabelecimento que envergue orgulhosamente como especialidade o Bacalhau à Brás suscita a admiração neste capítulo, mas faz-nos pensar que haverá ali algo para melhorar no arroz de pato ou no bitoque. Mesmo os restaurantes com comida estrangeira parecem já ter caído nesta tese: um bom pato à pequim ou chop suey de gambas, especialidades da casa, podem ocultar lacunas ao nível da galinha com amêndoas ou da sopa de barbatanas de tubarão. Ainda assim, seria bom que todo e qualquer estabelecimento pudesse ostentar a sua especialidade em plena montra: o videoclube referência em filmes do Van Damme, a drogaria líder de referência nos mata-ratos, o bar de alterne imbatível nas brasileiras, o cabeleiro demolidor nas permanentes. Qualquer um de nós, possuidores de especialidades e de falhas na nossa personalidade, apreciaria este gesto de profunda humanidade.