E eis que chega o momento de fazer o balanço das Legislativas '09:
O PS venceu as eleições, inequivocamente. Foi o partido que mais votos conseguiu e a dinâmica da campanha ajudou a que descolasse nas sondagens, numa altura em que andou algures nos empates técnicos com o PSD, sem descurar a derrota nas Europeias. Mas não é menos verdade que houve uma dimensão importante de perda de votos. Cerca de 9%, prova de que o eleitorado que deu a maioria absoluta em 2005 dispersou-se ontem por outros partidos.
O PSD teve como principal vitória, precisamente o facto de o PS não ter conseguido a maioria absoluta, o que fará com que possa haver maior dificuldade dos socialistas em aprovar propostas na Assembleia e ajudará o discurso de "que o Governo nada faz". A médio prazo, esta situação poderá ajudar o PSD a reorganizar-se - provavelmente sem Manuela Ferreira Leite como líder - e a afirmar-se como alternativa de Governo. Houve um ligeiro acréscimo face a 2005, mas um resultado de 29% para um partido de poder não pode ser senão um mau resultado.
A haver um vencedor, seria talvez o CDS, que obteve um resultado acima dos 10%, chegou a terceira força política e colocou-se na posição de ser o único dos três partidos "médios" a poder constituir uma maioria no Parlamento com o PS. Paulo Portas fez uma campanha esforçada, embora demasiado concentrada na figura do líder, e centrada em meia dúzia de ideias-chave - como reforço de segurança, apoio a PME ou os cortes no rendimento mínimo - e que passou, sobretudo naquele eleitorado que oscila entre o PSD e o CDS.
O Bloco de Esquerda consegue um grande resultado e foi a força política que mais cresceu face a 2005. Um partido que há 10 anos atrás festejava a eleição de dois deputados consegue agora eleger oito vezes mais e pode bem ter sido o que mais ganhou com a fuga de eleitores do PS. Falhou, no entanto, o objetivo de ser a terceira força política e não consegue chegar a um resultado de 50% + 1 na contagem de deputados próprios com os do PS.
A CDU manteve o seu eleitorado e conseguiu uma ligeira subida nos votos, mas fica certamente um amargo de boca por não ter conseguido capitalizar descontentamento à esquerda do PS. Fica provado que é força política mais à prova de hecatombes eleitorais ou de apelos ao voto útil, mas também que dificilmente protagoniza subidas eleitorais em flecha.
Por último, duas notas sobre a nova distribuição parlamentar. Em primeiro lugar, o Bloco de Esquerda - normalmente com um rácio de eficiência entre votos e mandatos bastante acentuado - foi a prova das vicissitudes da lotaria da proporcionalidade entre deputados e votos. O BE teve mais 2% de votos que a CDU mas apenas mais um deputado e menos cinco deputados que o CDS (menos 25%), decorrentes de menos...0,8% nos resultados finais. Em segundo lugar, fica também claro que o PS e o Governo terão vida complicada nos próximos anos, com a obrigação de negociar sistematicamente à esquerda e à direita, algo em que os socialistas não se especializaram nos últimos anos. Por fim, e face a cenário, o meu prognóstico é de que antes de 2013 seremos chamados a novo eleitoral para eleger Governo.