Em início de campanha para as Europeias, apenas me apraz dizer que este é o acto eleitoral é o mais complicado para os partidos. Não por serem eleições mais ou menos importantes do que qualquer uma das outras, mas para aquilo a que se destinam. Ao contrário dos outros órgãos de soberania, o Parlamento Europeu é o órgão que menos interesse suscita junto dos cidadãos, um pouco como sucede com a Europa de uma forma geral.
Um pouco como sucede com os restantes parceiros europeus, Portugal tem uma relação estranha com a Europa. Quanto aos outros 26 países desconheço razões sociológicas, mas as nossas são relativamente perceptíveis. É difícil chegar a um país com tantos séculos de história passar a mensagem de uma identidade europeia, quando ainda há pouco mais de 30 anos andava a tentar segurar colónias que detinha há séculos. Aliás, essas mesmas colónias sempre significaram muito mais em matéria de expansão de fronteiras do que qualquer território europeu. Olhando também para a história, não é difícil reconhecer que as relações com países europeias foram quase sempre marcadas pelo conflito. Não desencadeámos nenhuma guerra mundial, mas os conflitos pela independência com a Espanha ou as invasões napoleónicas não são a melhor das memórias históricas.
A questão da identidade europeia remete um pouco para a identidade nacional até há um século atrás neste país, de que o célebre episódio do Rei D. Carlos e os pescadores na Póvoa de Varzim será um curioso exemplo. Estas coisas não se constroem em meia dúzia de anos. Basta pensar que, entre o período da ditadura e o fim de um colonialismo de séculos e a adesão à CEE passaram apenas 12 anos. Ou seja, não é fácil para a consciência colectiva de um país deixar de apontar baterias para África para passar a fazê-lo para a Europa. Ainda para mais, para um país tão periférico a nível geográfico como Portugal, mais difícil a coisa se tornava. Antes da adesão, em 1986, o espírito europeu consistia na imigração para a França ou Alemanha. Nos últimos anos, a abolição de fronteiras e o Erasmus deu uma ajudinha na construção de uma consciência europeia junto de uma parcela relativamente reduzida da população. Convenhamos que não é muito. Resta-nos esperar umas décadas para que a maioria da população se considere, em primeiro lugar, europeia e só depois portuguesa. Até lá, continuaremos a olhar para tudo isto de um modo desconfiado. A prová-lo, a provável abstenção acima de 60% nas eleições para o Parlamento Europeu.