As excentricidades

Visto de fora, gera estranheza que empresas se decidam a patrocinar medidas que até podem ser prejudiciais para a própria actividade. Quando a EDP decidiu criar uma campanha destinada a promover a troca de lâmpadas para disseminar as lâmpadas de baixo consumo, é legítimo questionar o porquê de uma empresa que vende energia estar a gastar dinheiro para que se gaste menos energias em iluminação. A recente campanha da Energia Positiva da Galp, destinada a promover a partilha do carro e por inerência uma redução do consumo de gasolina por parte de alguns condutores, também suscita o mesmo grau de estranheza, dado uma empresa estar a gastar recursos para promover algo que não beneficia a própria actividade. Talvez o lado bom dos monopólios - o da EDP é óbvio, o da Galp meio disfarçado graças a uma concorrência pouco transparente com BP e Repsol - seja permitir às empresas este tipo de excentricidades.

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Regresso ao passado


Puxar pela memória futebolística é sempre um exercício algo divertido, pelo menos para mim. Neste caso, puxar por mundiais que eram seguidos pelo gosto pelo jogo e onde todos éramos testemunhas da história que se ia fazendo: o deslumbramento mundial perante a arte e a malandrice de Maradona em 86, a vingança quatro anos depois com o futebol pouco estético mas eficiente da Alemanha de Mathaus, as selecções africanas que provocavam a inevitável simpatia mas cuja ingenuidade deitava por terra as aspirações construídas pelo gozo pelo jogo dos seus intervenientes, as fífias de René Higuita, os golos de Roger Milla, o Brasil que parecia sempre o vencedor antecipado, a Inglaterra que andava lá perto mas que nem passava dos quartos-de-final, os ilustres desconhecidos que se tornavam estrelas num ápice. Pese embora a tristeza pela ausência de Portugal - muito embora fosse algo já devidamente interiorizado porque já era habitual - a prova não deixava de ser acompanhada e suscitando obviamente discussões, por exemplo entre os fiéis ao património lusófono que torciam pelo Brasil e os que iam atrás da sedução do futebol argentino ou quem decidisse torcer pela Alemanha, pela Itália ou pela Inglaterra.

Depois de ver ontem o jogo da selecção nacional contra a Suécia, vieram-me à memória essas recordações. Para o ano, o mundial de futebol da África do Sul será quase de certeza assim. Só por mera hipótese académica uma selecção que não vence em casa a Albânia, que perde em casa com a Dinamarca ou não derrota uma Suécia quase sem iniciativa atacante, pode esperar qualificar-se. A velha sina lusa vai repetir-se. E é melhor irmos escolhendo uma selecção pela qual torcer no mundial de 2010.

Street Racing dos pobres

Há duas noites atrás, o grupo de oito pessoas onde me incluía propôs a dois taxistas uma corrida em alta velocidade em plena madrugada lisboeta, o qual foi prontamente aceite pelos profissionais de condução. Uma situação destas acarreta obviamente uma série de factos bizarros - o gosto pelo risco dos profissionais da coisa, o gosto pela parvoíce etilizada dos passageiros e a óbvia conclusão de que álcool e condução deveria andar bastante afastados. Quanto a mim, que não tenho carro e cujos dotes para a condução serão mais ou menos os mesmos que os de Lucílio Baptista para ajuizar lances dúbios de penáltis, é certamente o mais perto que consigo estar do Street Racing.

Falta carisma

Nos últimos dias, tenho dedicado alguma atenção ao Facebook, ao qual aderi há umas semanas e no qual nem sequer tinha uma fotografia, embora deva reconhecer que aquela face branca sobre o fundo azul fosse um melhor cartão de visita do que uma fotografia minha. Sempre ouvi dizer que o Facebook correspondia a uma certa moralização das redes sociais, o que todos sabemos que é uma tarefa particularmente inglória.

Se é certo que o Facebook acaba por ser uma ferramente particularmente completa e até mais segura, dado não haver forma de terceiros acederem ao nosso perfil se não forem nossos "amigos", parece-me que o facto de querer juntar toda uma série de funcionalidades - rede social, possibilidades de actualização diária, chat, possibilidades de agrupar pessoas directamente por local de trabalho ou de estudo - essa versatilidade acaba por ser uma desvantagem. Nota-se a ausência de algo que seja realmente uma imagem de marca. Faz ali falta a rambóia e a falta de vergonha do Hi5, as funcionalidades de um chat, a possibilidade de dar a conhecer coisas feitas pelos utilizadores como sucede com o My Space, as conexões a nível de trabalho de um Linkedin ou a possibilidade de variar diariamente os conteúdos que os blogues conferem. Em suma, faz falta ao Facebook um certo carisma.

Uma Edite Estrela em cada esquina!

Seria bom que as vozes que se têm levantado contra o Acordo Ortográfico, alegadamente pela defesa da integridade da língua que se fala por cá, também se insurgissem contra a deterioração do uso da língua e com o atropelo às regras mais elementares da gramática da Língua Portuguesa. Com toda uma série de novos projectos educativos neste país - a que se juntam ideias peregrinas como a de os alunos não chumbarem ou aulas de substituição dadas por professores de uma diferente área pedagógica - ter-se-ão esquecido os rudimentos mais básicos de toda a aprendizagem: a língua em que esses conhecimentos são adquiridos. E, sem me querer armar em velho do Restelo, acredito que hoje esse conhecimento seja passado de forma mais ineficiente do que quando eu andei na escola da mesma forma que eu próprio tê-los-ei recebido de forma mais ineficiente do que no passado.

Photobucket

Este anúncio da Yorn, que encontrei hoje no Facebook, é uma belíssima metáfora dos ataques a que a língua Portuguesa tem sido alvo. Quem conhece a marca, sabe que se destina a um público que certamente não se importa que nem sequer seja bem conjugado o verbo pedir. Se eu alinhasse com mais facilidade em teorias conspirativas, diria que o erro foi propositado para facilitar a comunicação com o público-alvo, mas prefiro acreditar na ignorância de quem o escreveu. Um daqueles casos em que marca e público-alvo estarão certamente bem um para o outro.

Links removidos

A barra do lado direito tem hoje menos links do que há uns dias atrás. Após ter verificado se todos os blogues se mantinham em actividade, notei que não havia sinais de vida há já alguns meses numa boa meia dúzia deles. O mais irónico é que a maioria dos blogues que sairam eram assinados por pessoas que conheço pessoalmente. A barra de links do lado direito não é imutável e os links podem voltar, tem é de voltar a existir actividade nos blogues. Ninguém pede posts com links sobre como sair da crise financeira, como aumentar em 29% o grau de atractividade junto do sexo oposto ou fórmulas vencedoras do Euromilhões , mas - que diabo! - um blogue não custa muito a actualizar: basta um copy + paste de anedotas brasileiras, um vídeo do Youtube ou um horóscopo de um site espanhol. Aguardo feedback.

Dentro de quatro paredes

Em arrumações no último fim-de-semana, decido agrupar uma série de t-shirts numa gaveta. T-Shirts com as quais a maioria das pessoas nunca me viu vestido e que funcionam, não só para mim, como para a generalidade das pessoas como ícone do pequeno mundo que são as quatro paredes da nossa casa. Todos nós temos aquilo que genericamente chamamos "as t-shirts para trazer em casa": aquelas que por qualquer razão vamos coleccionando ao longo dos anos mas sobre as quais temos a percepção de que faremos obviamente má figura numa qualquer rua, bar, local de trabalho ou centro comercial deste país. Não terão o desenho mais bonito do mundo ou nos assentarão da melhor maneira, mas permitem indubitavelmente dormir ou fazer qualquer outra actividade dentro decasa.

Eu, que sou um aficionado pelo extraordinário mundo das t-shirts e que trago comigo todo um lastro de investimento razoável neste objecto de vestuário, devo obviamente reconhecer que possuo uma bela colecção de t-shirts que podem ser usadas noutras ocasiões que nada tenham de social e que só podem suscitar um ligeiro esgar de troça: uma vinda do pavilhão da Arábia Saudita na Expo 98, um eloquente "Eu protejo a floresta" oferecido pela Direcção-Geral de Florestas, uma recordação da minha viagem de finalistas do secundário "They say I was in Costa Brava, but I can't remember" que já usei mas cujo pudor me fez voltar atrás na decisão, um logotipo da RTP estampado numa t-shirt com mais buracos que o Orçamento de Estado, a evocação de uma meia-maratona de Lisboa corrida há uns 10 atrás, uma "wannabee" de fraca qualidade de t-shirt da selecção argentina de futebol num azul demasiado berrante ou uma estampagem absolutamente vergonhosa (pela falta de qualidade) do "Punk in drublic" dos NOFX. E algo me diz que pérolas destas se podem encontrar nos guarda-roupas de muitos milhões de portugueses...

Juntar-me à indignação

É difícil imaginar qual teria sido o resto do Sporting - Benfica de ontem se o malfadado penálti não tivesse sido assinalado. Sendo assim, e dado que o mesmo se tratou de um erro do árbitro, podemos dizer que o Benfica foi beneficiado. Da mesma maneira que foi beneficiado noutros jogos e prejudicado noutros, o erro do árbitro influenciou o resultado. Junto-me à indignação dos sportinguistas, mas por outra razão - não sendo errado dizer que o Benfica conseguiu ganhar a Taça da Liga com a ajuda do árbitro, gostaria de ver o Benfica beneficiar deste tipo de ajudas noutro contexto que não este. Uma erro clamoroso a nosso favor da equipa de arbitragem convinha que fosse por algo que valesse realmente a pena - uma meia-final da Taça dos Campeões Europeus, um jogo decisivo para o Campeonato Nacional, vá lá, uma Taça de Portugal - e não algo que nos permitisse ganhar uma competição com nome de cerveja, com o formato de competição mais absurdo que apareceu no futebol nacional nos últimos anos e que estará condenada ao fracasso daqui a uns anos.

Solução para este imbróglio? Seria pegar na Taça e ir devolvê-la à rapaziada do clube do Campo Grande e, já agora, enchê-la de Moet et Chandon e obrigar aquele jogador irado que não aceitou a medalha a beber tudo de penálti.

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Menor actividade

Os (três ou quatro) leitores mais assíduos deste blogue certamente já terão chegado à conclusão de que o fluxo de actualizações tem sido menor nos últimos tempos. Tal deve-se a problemas que tenho enfrentado no acesso à Internet, à qual consigo aceder apenas quando consigo obter ligação ADSL, algo que acontece apenas durante pequenos períodos do dia. Problemas técnicos que, enquanto não forem resolvidos, vão causando mossa na actividade normal do LdM. Fica a justificação.

10 anos do Bloco de Esquerda

Nas últimas semanas, muitos dos blogues que leio recordaram os 10 anos do Bloco de Esquerda, efeméride que se registou há umas duas semanas, salvo erro. Também eu posso dizer que estive na fundação deste partido, não a título político, mas a título meramente burocrático, à conta de uns voluntariosos jovens que recolhiam assinaturas à porta da cantina da Cidade Universitária e que, não só me convenceram a perder uns minutos a preencher papelada destinada a acrescentar às estatísticas das "assinaturas necessárias" para um novo partido. Burocracias à parte, um projecto como este, nascido da conjugação de esforços de três pequenos partidos que foram desaparecendo com o tempo, está obviamente de parabéns, não só pelo crescimento que registou ao longo dos diversos actos eleitorais mas essencialmente por ter furado a lógica eleitoral dos quatro partidos que constituíam o espectro partidário em 1999. Gozando do facto simultaneamente pernicioso e vantajoso de recolher o chamado "voto de protesto" contra os partidos de poder, resta saber se tem por detrás uma base eleitoral sólida que permita assegurar votos quando as coisas não correrem tanto de feição - leia-se, perante a ameaça da necessidade do voto útil no PS ou no dia em que Francisco Louçã abandonar a liderança do partido, por exemplo. Com uma crise a agudizar-se e com a progressiva deslocação do eleitorado para a esquerda, poderá ser o principal beneficiário desse estado de espírito dos eleitores.

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A mística ficou à porta

Ainda não explorei a sério o novo Canal TVI24, mas ontem debrucei-me sobre um programa de futebol - Maisfutebol de seu nome - que pode causar algum furor. Algures entre programa de debate desportivo e a conversa de café já meio entornada por uns whiskys, onde um jornalista com um portátil em frente tenta dar dignidade a um painel onde até o pivot bem está mais vocacionado para a galhofa. Por entre toda um vaivém entre discussões tácticas, reportagens no café onde Paulo Bento toma o pequeno-almoço ou questões a Jorge Jesus sobre o casamento homossexual, surgiu a discussão em torno de golos marcados com a mão. No programa de ontem, houve oportunidade de entrevistar Vata por telefone. O avançado angolano, hoje a viver na Austrália, quando inquirido sobre o polémico golo marcado ao Marselha com mão, manteve a tese de que não foi com a mão ou que, mesmo tendo-o feito não foi intencional, mesmo pressionado por Mozer, seu adversário nesse jogo. Aí está a versão benfiquista da "mão de Deus", de que o jogador não abdica, consciente de que um golo marcado com a mão é paradoxalmente o seu maior feito enquanto ponta-de-lança.

A questão não terá sido introduzida por acaso. por estes dias, fez-se notícia de que David Luiz admitiu irregularidade no golo que marcou ao Braga. Que diabo, uma trapaça dessas só se admite épocas depois, preferencialmente já ao serviço de outro clube e não jornadas depois, qual assassino a querer regresar ao local do crime ao fim de pouco tempo. Quem não conhece a forma de ser benfiquista - e , por inerência, da manha e da propensão para a patifaria mais ou menos escondida do português - é alguém que não está dentro da mística do clube. Já não bastava o espanhol tê-lo posto a defesa-esquerdo e a dar fífias contra o Sporting e agora desonra o clube desta forma. É despachá-lo no final da época!

Videoclubes

O advento de novas tecnologias tem sempre o lado negativo de causar mossa em sectores que julgávamos implantados. O Video on Demand é um desses casos. Ainda sem estar generalizado e totalmente implementado em Portugal, a procura é crescente, o que provoca invariavelmente um impacto negativo nos clubes de vídeo. Hoje considerados uma coisa um tanto ou quanto anacrónica, vão desaparecendo aos poucos da paisagem urbana, não só devido à expansão de blockbusters e afins, mas também com a possibilidade de aceder ao filme desejado com um simples toque no comando.

Com a redução desta actividade comercial, vamos ficando sem toda uma série de fenómenos associados ao negócio: os nomes ridículos que estes estabelecimentos por norma exibem, os chamados filmes para adultos com as capas viradas do avesso e cujos clientes imediatamente recebiam um epíteto de "tarados", a divisão quase sempre dúbia por géneros, os filmes de que nunca se tinha ouvido falar e que suscitavam a dúvida sobre qual a razão para estarem naquelas prateleiras ou os ansiados filmes para os quais se metia uma cunha ao funcionário ao balcão para que o guardasse à socapa dos restantes clientes. Da minha parte, ainda terei guardado algures um cartão de um clube de vídeo (também com um nome de eficácia duvidosa no campo comercial) com alguns milhares de clientes e do qual o meu pai era o sócio número quatro. Por uma questão de status, nunca quis ter o meu próprio cartão e usava o do meu pai. Compreensivelmente.

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O autocarro derrapa sempre duas vezes

Calhou hoje passar na Rotunda do Relógio pouco tempo depois de um autocarro articulado ali se ter despistado e ter ferido quatro pessoas, uma delas o condutor de um ligeiro. Pelo que depois andei por aí a ler em sites de notícias - nomeadamente os sempre profícuos comentários às ditas notícias - e parece que naquele local até é palco já habitual para acidentes envolvendo pesados de passageiros. Eu próprio, com um currículo já bastante extenso em matéria de transportes públicos, devo dizer que o único susto que apanhei num autocarro foi precisamente quando um veículo articulado começou a derrapar precisamente no mesmo sítio em que um autocarro hoje se despistou, valendo na altura a perícia do motorista. Aqui está, portanto, um assunto que urge ser estudado por dois tipos de especialistas: os que se dedicam à sinistralidade rodoviária e aos estudiosos dos mitos urbanos.

Os irmãos mais novos

Há precisamente um ano, numa madrugada de Domingo para 2ª feira, nasciam de uma rajada o Nacional Maior e o Velhos Anúncios, destinados a colocar na Internet algum espólio recolhido essencialmente em emissões da RTP Memória. Em matéria de produção bloguística, os anúncios vão sendo mais assíduos (101 posts) do que velhas glórias futebolísticas dos anos 90 (82 posts), mas as recordações futebolísticas têm sido mais populares entre os cibernautas, como atestam os números dos contadores e as citações em blogues alheios. Se é um facto que a produção nestes dois blogues é inferior hoje em comparação com o que sucedia no início - a que uma maior falta de tempo da minha parte hoje em comparação com há um ano atrás não é alheia - não é menos verdade que se mantém intacta a intenção - altruísta, diga-se - de dar a conhecer pequenas pérolas ao sempre estimulante mundo da Internet.