O último dia do ano

Sinal dos anos que vão passando é o facto de não passar o fim-de-ano fora de Lisboa há já alguns anos, fruto de condicionantes várias que vão desde as obrigações laborais, sejam minhas ou as de terceiros, a dificuldade em juntar amigos suficientes para poder passar dias seguidos num cenário algures entre a alegria da amizade e o caos do vício, ou a perda de vitalidade nalgumas relações. Acresce o facto de hoje ter sido o primeiro dia 31 de Dezembro que passei a trabalhar, o que não deixa de ter algo de significativo.

No meio de tudo isto, lá se vão conseguindo algumas vitórias, como conseguir juntar hoje alguns amigos no ambiente festivo perfeito para um reveillon - leia-se, uma festa caseira longe da confusão e da avultada despesa que implica passar a data num espaço público - a fazer lembrar grandes momentos de glória passados em casas de férias cedidas para o efeito, em casas alugadas quase a preço de ouro ou em bungalows sobrelotados. Dias associados a um certo excesso e a consumos pouco regrados, em que as horas de acordar por vezes coincidiam com o pôr do sol ou em que passavam pelo estômago refeições a que reagiríamos com prudência se nos fossem colocadas à frente noutro qualquer dia do ano. Memórias de outros fins-de-ano à parte, hoje é um dia festivo. Caseiro, mas festivo. Até para o ano!

Natal fora de horas

Os dias de ressaca do que quer que seja nunca são fáceis. Os de ressaca do Natal também não: olha-se para os gastos feitos em prendas para uma noite e vem a inevitável desilusão e a assunção de que se gastou dinheiro a mais e que afinal não temos um nível de rendimentos assim tão bom que permita bater anualmente os recordes de transacções de dinheiro. Os sempre afoitos comerciantes jogam que nem mestres na simbologia das datas e provocam a sensação de que, ou se compra tudo no Natal, ou então não vale a pena, o que provoca os conhecidos dias de caos nas superfícies comerciais no mês de Dezembro.

Os dias a seguir ao Natal são fantásticos, para já pela calma e normalidade que proporcionam os primeiros dias após a loucura que apoderou da população durante o mês de Dezembro e que têm o seu apogeu na noite de 24 para 25. E também por ser a altura em que nós, enquanto consumidores, temos a nossa vingançazinha perante aqueles que vão vendendo ilusões nas alturas-chave e que acabam por provocar rombos nos bolsos dos menos endinheirados ou menos sensatos. Essa vingança vem sob a forma de saldos, em que é preciso despachar o que se pensava vender na grande avalanche de consumo do mês de Dezembro mas afinal não se vendeu e em que a falta de bom-senso na fúria consumista pré-Natal dá lugar à fantástica conclusão de que é por estes dias que o dinheiro milagrosamente estica: que 100 euros no dia de hoje dão para comprar o dobro das camisolas, calças ou camisas que seriam possíveis comprar há uma semana atrás. Perdoe-se-me o carácter extemporâneo da afirmação, mas é um facto: o Natal começa efectivamente por estes dias.

Googladas

perfil do hi5 que entra na página de erro
como ensinar a respiração para iniciantes nataçao
Imagem de pé de pinho
romã simpatias
venda de titulos nobiliarquicos
casa em forma de aeroporto
som para fudo de carro
simpatia para tirar mal cheiro axilar
Raquel Strada fotos roubadas
objectos permitidos levar jogo benfica nacional

O Big Brother dos pobres

Há já algum tempo que não via o meu vizinho de baixo. Arrisco mesmo que ainda não o tinha visto desde que mudei de emprego. Sendo assim, já previa que as minhas mudanças de horários e de hábitos, agora bem mais madrugadores do que no passado, certamente que iriam suscitar algum comentário da sua parte quando o acaso nos cruzasse no meu prédio ou nalguma rua próxima. Dito e feito, ontem mal me apanhou a jeito, soltou de imediato o script previamente preparado e gravado na cabeça para quando se desse a ocasião: para além de me perguntar se eu não poderia começar a tomar banho à noite, mostrou-se igualmente indignado com o barulho da minha chave quando dá voltas na fechadura ou com o barulho que faço quando fecho a porta do prédio. De nada serviu explicar que fechar uma porta à chave faz inevitavelmente barulho e que fechar a porta do prédio levemente e sem barulho faz com que esta fique aberta, sobretudo porque dali já ouvi reparos aos meus festejos nalguns golos do Benfica ou ao barulho da tampa da sanita.

Estranho foi o próprio ter concluído que não saio sempre de casa à mesma hora - o que é um facto - e a interrogação sobre os meus horários das próximas semanas, o que obviamente foi respondido com um lacónico «Bom fim de semana!». Que se danem os movimentos bancários, a videovigilância ou o SIS: eu cá tenho o meu próprio Big Brother, mesmo debaixo dos meus pés.

Pérolas que me chegam ao ouvido (10)

«Ó filha, se 'tás com falta de dinheiro, vai para o Cais do Sodré, que eu tive que ir p'ra lá muitas vezes!»

Uma senhora exaltada, numa rua de Moscavide.

Fui à Covilhã passar o Natal

Pin Mafia da Cova

E o melhor que trouxe de lá foi este pin.

Googladas - Murphy

AS LEIS DE MURPH REALMENTE EXISTIRAM
um feiticeiro que ajuda morphy em investigações serie
técnica do envelope murphy
lei de murphy agressão
lei de murphy para os gays
lei de murphy sobre sentimentos
CANTORA MURF
lei de murphy concursos
Eu vi o pato na Lei de Murphy!

É impressão minha...

Teste Morte

ou este é o anúncio mais irritante que apareceu aqui pela Internet nos últimos tempos? Não obstante o risinho idiota da caveira, o propalado Teste da Morte não passa de mais uma tentativa espertalhona de ganhar uns euros ao incauto cidadão via SMS.

Zon Card

Recebi hoje no correio o meu MyZon Card. Este cartão, que permite um total de 52 idas ao cinema anuais por parte do respectivo utilizador, é mais um episódio no duelo comercial fratricida que opõe a Zon à PT e é mais um mimo que faz lembrar aquelas pessoas com quem andámos chateadas durante muito tempo e que, de repente, querem que lhes perdoemos todas as chatices que nos proporcionaram e nos querem comprar com prendas: «Desculpe lá os dias sem Internet, vá lá ao cinema que a gente paga e não se fala mais nisso!» ou «Pronto, para não ficar ressentido com a factura de 500 euros que andámos a mandar-lhe durante uns meses, tome lá um cartão e veja uns filmezinhos à nossa conta!».

Ainda assim, não há lugar para rancores. Aceito o cartão que me chegou via correio e fico assim com o coração mais amaciado e menos amargurado pelos episódios algo bizarros com que estes mesmos ofertores do cartão me andaram a presentear. Embora pareça estranho, julgo não conhecer ninguém que tenha tido direito a semelhante oferta - conheço bastantes pessoas com TV Cabo, mas titulares já me parece mais difícil - o que me poderá de novo levar para alguns dias em que me metia sozinho a caminho do cinema aproveitando os bilhetes a metade do preço que vinham no DN aos domingos. Num desses dias, consegui ficar literalmente sozinho numa sala do cinema Mundial. Muito embora os cinemas dos centros comerciais sejam menos propícios a isto, dada a conhecida frequência por parte de adolescentes borbulhentos e ávidos comedores de pipocas, talvez consiga repetir a proeza. De qualquer forma, por muitos espectadores barulhentos que estejam na mesma sala que eu, não me posso queixar, precisamente porque nunca podemos dizer mal de uma coisa quando esta é de borla.

Gato Fedorento '08

Pode não parecer, mas o ano de 2008 teve pouco Gato Fedorento. Teve muitos anúncios da PT protagonizados por eles mas programas televisivos propriamente ditos terão sido pouco mais de uma dúzia. Apesar de achar que foram o melhor que aconteceu ao humor português na última década, sou forçado a concordar que a coisa começou a perder alguma piada. Aquilo que dava realmente piada aos sketches - leia-se, o aproveitamento com fins cómicos desse filão quase infindável que é a linguagem, indo ao jargão, aos clichês e ou às expressões idiomáticas - foi-se perdendo nos últimos anos, quando se abandonou esse registo para se passar à cobertura da actualidade.

Se é certo que esse mesmo aproveitamento da actualidade trouxe rábulas quase históricas, como as entrevistas ao Paulo Bento ou a imitação de Marcelo Rebelo de Sousa em relação ao aborto, não é menos verdade que a originalidade começou a faltar com o tempo e a mudança de estação não mudou o estado de coisas: a imitação a José Sócrates, embora boa, começou a ser quase semanal, o aproveitamento do arquivo histórico dos canais televisivos manteve-se e nem sempre com o melhor nível e, face à perda de qualidade dos textos, também a falta de jeito para representar se tornou um pouco mais evidente.

De certa maneira, pode dizer-se que os Gato Fedorento começaram a ser vítimas do seu próprio sucesso. O tempo que antes havia para explorar esse manancial que é a linguagem deixou de existir e, com isso, perdeu-se aquilo que antes dava piada aos sketches. Face à obrigatoriedade de gravar um programa por semana, quase deixou de haver tempo para que os próprios se dedicassem como deve ser à escrita humorística com o devido tempo. Afinal de contas, aquilo que lhes deu notoriedade.

Alegre Manuel

Em bom rigor, não é difícil concordar com o discurso de Manuel Alegre, uma espécie de porta-voz da desilusão num país onde crescem as desigualdades e se pedem sacrifícios aos cidadãos sem que estes tenham trazido o devido retorno. Por isso, o momento político é particularmente favorável às correntes de esquerda, que contam também com o empurrãozinho dado pela crise do subprime e pela pouco convincente salvação de bancos. No entanto, Manuel Alegre é uma figura com algumas idiossincrasias, como o facto de estar dos dois lados da barricada ao mesmo tempo. A candidatura presidencial de 2006 e as críticas ao estado de coisas fariam todo o sentido se, pouco tempo depois e até mesmo durante a campanha, não se visse o mesmo Alegre votar ao lado do Governo em matérias que ele próprio criticava. Ao longo dos anos, usou o seu estatuto de histórico do partido para criticar o cinzentismo ideológico vindo dos governos de Guterres e de Sócrates mas mantendo sempre o seu mandato de deputado e mantendo-se ao lado daqueles que criticava.

A propalada união das esquerdas - até à data, com Bloco de Esquerda, independentes e a chamada ala esquerda do PS - que Alegre parece querer liderar só faz sentido se o próprio reconhecer que está cada vez mais distante do PS que actualmente ocupa o Governo e partir para um projecto político autónomo capaz de rivalizar com as teses actualmente vindas do Largo do Rato. Se esse mesmo projecto político se concretizar e Alegre se aproximar efectivamente do ponto de vista político daqueles com quem anda a animar comícios, aí sim Manuel Alegre poderá pelo menos simbolizar a antítese do actual estado de coisas. Se, por seu turno, nas próximas eleições continuar ao lado daqueles que tem vindo a criticar, então está a entrar em contradição, até porque a sua presença nas listas do PS até dá para fora a ideia de que há mesmo uma ala esquerda válida e debate interno no seio dos socialistas, o que convenhamos até ajuda a evitar a fuga de alguns descontentes para o Bloco de Esquerda ou PS.

Googladas

legislaçao sobre idas à casa de banho
livro amarelo feira nova odivelas parque indignaçaõ
filme pornografico do escorpiom
fotos frechaut a jogar com a camisola do boavista
ontem apanhei uma bebedeira
zoo tycoon macacos fogem
MODELOS DE PARÓDIA COM A PALAVRA OCULOS
onda choc still loving you
falha electricidade amadora dezembro

O canal do Benfica

Dei este fim-de-semana a primeira vista de olhos pela Benfica TV. Não sei qual será a evolução do canal daqui para a frente, mas não fiquei com a melhor das impressões: o Benfica-Nápoles a repetir quase diariamente com comentários que mesmo sendo proferidos por alguém do mesmo clube que nós suscitam algum incómodo face a um facciosismo algo excessivo, o que aliás se passa com as modalidades (no Benfica-Ovarense em basquetebol, os pontos a favor eram festejados de um modo absolutamente evasivo ao passo que os dos adversários mal eram referidos), o espaço de "debate" protagonizado por quatro senhores era quase um tiro ao boneco verbal contra Pinto da Costa, para não falar da cobertura dada ao Leixões-Benfica, com três elementos em estúdio a olhar para uma televisão a comentar as incidências do jogo, o que obviamente suscita a dúvida sobre quantas seriam as pessoas a ver aquela emissão dado que o jogo propriamente dito decorria noutro canal. Uma apreciação deste tipo tem obviamente uma conotação clubística, já que o mínimo que se esperaria de um canal com este nome seria uma mistura de Eurosport com BBC News. Como o petiz que, vindo de boas famílias, tem de ser simultaneamente bom a Inglês e a Matemática e saiba jogar râguebi e não desgrace a fortuna da família no jogo.

Sócio de ouro do LdM FC



Este blogue, tendo um carácter generalista e portanto sem uma preocupação de ter um olhar privilegiado para o umbigo do seu autor, raramente envereda por um discurso apenas compreensível por meia dúzia de pessoas de amigos, ainda assim abro hoje uma pequena excepção. Um amigo de longa data, frequentador assíduo deste blogue (logo, com importante contributo para as estatísticas dos counters e para as caixas de comentários) completa hoje a redonda data de 30 anos. Tal como sucede com as cerimónias dos clubes, quando alguns dos seus sócios completam os 25 ou 50 anos de associado na instituição, também aqui assinalo a data: parabéns David Lopes!

100 anos de Manoel de Oliveira

Independentemente de se gostar ou não dos filmes de Manoel de Oliveira ou de se achar que o seu ritmo e carga simbólica pouco ou nada têm a ver com os cânones do cinema mais comercial, é inegável que se trata do cineasta português mais conhecido fora de portas, não só pela extensa lista de filmes que realizou como pela invulgar longevidade a nível pessoal e profissional. Manoel de Oliveira completa hoje 100 anos.

O lixo em Lisboa

Os resultados práticos do protesto do sector do lixo em Lisboa confirma o que o senso-comum já indicaria: que esta é uma classe cujo trabalho tem um impacto social significativo. Basta atentar nos caixotes do lixo e ecopontos um pouco por toda a cidade para provar o que alguns dias de paralisação provocam.

Em causa está um alegado estudo da autarquia para concessionar a privados a limpeza em determinados pontos da cidade. A ideia de passar para a alçada privada a concessão privada um serviço deste tipo é passível de causar alguma estranheza, mas basta recordar que a actividade de privados na limpeza urbana não será um fenómeno totalmente novo, até porque já todos teremos visto fulanos montados em pequenas motoretas a apanhar os "presentes" dos cães nos passeios e não me parece que esteja em causa a salubridade da cidade em causa por causa disso. Apesar de me parecer que o serviço do lixo em Lisboa funciona relativamente bem - e talvez não funciona melhor porque por vezes acabamos por nos esquecer que esta questão também passa por nós enquanto cidadãos - não vejo onde está o problema de certas zonas serem entregues a empresas especializadas na matéria, desde que cumprindo aquilo para que são contratadas.

O programa do Aleixo

Desde que os Gato Fedorento passaram para o mainstream que tinha saudades de ver humor mais fora do comum em português e felizmente que vai havendo a SIC Radical para dar tempo de antena a projectos como o programa do Aleixo, em que é dado um programa a uma sinistra figura do humor série B português, devidamente divulgado por Markls e afins.

Bruno Aleixo é o protagonista deste programa, feito por rapaziada de Coimbra com recurso à tecnologia e praticamente sem pessoas à frente das câmaras. A personagem em si é um pouco fora do que estamos habituados em matéria de humor, algures entre a mais pura parvoíce e a comédia associada a certas situações específicas, que tanto podem provocar a reacção de estupefacção ou a lágrima de tanto rir. Para além de referências que não se sabem muito bem de onde vêm - como o Mister Cimba ou as cartas da rainha da Nigéria - ou o non-sense em alguns diálogos - como o campeonato de vinho traçado ou a recordação de um jogo da selecção nacional B de futebol - as entrevistas a figuras conhecidas são provavelmente o momento mais épico de cada um dos programas. Felizmente, esses programas estão on-line e quem não conhece, pode ficar com uma amostra aqui.

Googladas

músicas de monstros que ganhou o festival da canção
depois de uma noite de arromba
o suchi é uma comida tipica de que pais?
a mae do deco e portuguesa
farmacos para dor de barriga
parodia do pioneirismo de portugal
sinestesia com o roxo
Charles Bronson gestor
dinâmicas para aula da saudade

Melhor que as promoções da Worten

A Florcaveira disponibilizou um site para encomendas online dos CD's do catálogo, a preços escandalosamente baixos e com portes incluídos. Agora, já não há razão para a nação desconhecer canções como "Verão de 2003", "A Isabel é Intelectual" ou "Desliga a TV".

O baú das canções: "Anda cá ao tio"



A música portuguesa está recheada de dedicatórias familiares: há músicas de pais para filhos, de filhos para pais, de avós para netos, de netos para avós e até para as mães, as filhas e as irmãs dos outros. A canção "Anda cá ao tio" de Augusto Neves e os Fiat Lux preenche uma lacuna no que respeita a estas ligações familiares: a canção do tio para o sobrinho. Quem tem tios ou sobrinhos sabe as especificidades associadas a esta ligação familiar, nomeadamente a forma como os tios acompanham os sobrinhos sobretudo ao longo do seu processo de crescimento, especificidades essas bem captadas ao longo da canção. É o caso do «estás cada vez mais grande», «qualquer dia vais à tropa», «dás-te bem com o teu primo», «qualquer dia levo-te a ver o Benfica» e por aí fora. Acresce uma batida que acrescenta todo um quadro pitoresco à canção e está encontrada uma música que não teve o sucesso que realmente merecia.

Discutir bola

Se surgisse uma espécie de classificação de temas preferidos para discussão em Portugal, o futebol ficaria muito provavelmente em primeiro, pelo facto de reunir dois elementos bastante importantes na nossa maneira de ser enquanto povo: o ter-se opinião sobre tudo e o achar que se tem razão sobre tudo. Transpondo este raciocínio para o futebol, à faceta de treinador de bancada junta-se a ligação sentimental a um dado clube.

Por isso é que as discussões sobre futebol acabam por constituir a eterna tentativa de estabelecer a quadratura do círculo, quando são entre adeptos de diferentes clubes, dado que há poucas formas de se chegar a acordo: para um adepto, o seu clube é sempre melhor que o clube do vizinho que teve o azar de transportar a cruz de ser adepto do rival. Por isso, este não será dos temas mais indicados para profícuas discussões, a não ser que os interlocutores também sejam do mesmo clube que eu. Aí sim, há espaço para falar de futebol, esbatidos que estão os clubismos. Por exemplo, o recente desaire em Atenas e a forma infantil como acabou o jogo com o Vitória de Setúbal podem perfeitamente ser abordados, desde que no seio de benfiquistas, um pouco como os assuntos melindrosos que apenas devem ser tratados dentro da família. Daí se falar na grande família benfiquista, até porque é apenas aí que se pode dizer o que não se diz ao primo do Sporting ou ao colega de trabalho portista: que o Balboa é capaz de ser um flop, que o Artur Jorge foi posto no Benfica pelo Pinto da Costa, que o Luís Filipe Vieira nem sempre dá uma grande imagem do clube, que o Benfica TV é capaz de se revelar uma xaropada, que desde que o Carlos Lisboa acabou a carreira que nunca mais cilindrámos ninguém nas modalidades e por aí fora.

À semelhança do que já sucedia com espaços noutros meios de comunicação social - como os protagonizados pelo Fernando Correia na TSF e agora no RCP - a Internet deu um contributo fantástico para as discussões de futebol, transpondo para o virtual o que há muito se assiste nos cafés, nas paragens de autocarro ou nos locais de trabalho - a tal discussão desenfreada sobre futebol, com o extremar de posições e a instituição de um clima de quase guerra civil. Provavelmente estarei a esquecer-me de algum espaço importante, mas há dois sites particularmente interessantes que acolhem este clubismo à flôr da pele, em que o fanatismo é devidamente encoberto pelo manto de um certo anonimato que a Internet confere: o Relvado e o Record on-line.

O Relvado é o fórum de futebol mais antigo que conheço e é palco de acesas discussões, que metem insultos atentatórios à dignidade das mães dos outros utilizadores, e onde chegam a existir clones e utilizadores a fazerem-se passar por outros, tudo situações particularmente interessantes dado tratar-se de um fórum moderado. Enquanto dedilho esta prosa, posso ler o epíteto de "clube comatoso" dado por um sportinguista ao Benfica, embora noutro artigo o Porto seja comparado à mafia napolitana e sejam referidos os favores prestados ao Sporting desde a pala de Alvalade, não esquecendo igualemente a denuncia da "mediocridade reinante na comunicação social portuguesa". Quanto ao Record, é sabido que foi precisamente por fornecer uma plataforma que propicia aos utilizadores acesas discussões sobre os artigos lá colocados que conseguiu "dar um bigode" à concorrência, aliando a nobre arte do jornalismo à discussão de tasca. E também por aquelas bandas há gente que foi ganhando notoriedade à custa do clubismo e da provocação a outros comentadores, o que é natural se é de futebol que falamos. Um em particular suscita-me a atenção e tem o sugestivo nome de "PAULO FCPORTO", o que nada teria de mal não fosse um certo estilo arruaceiro e a tendência de querer deixar a sua marca em tudo o que é notícia e de as aproveitar para mandar sempre bitaites sobre o Benfica, independentemente de a notícia ser sobre o seu clube ou o rival, sobre ralis ou a segunda divisão do campeonato turco, o que fará dele certamente um dos utilizadores com maior presença nos comentários da página deste jornal desportivo. Quem costuma ir ao site do Record já se deparou diversas vezes com este fenómeno, que suscita sempre a interrogação sobre quem se esconde por detrás do nick: seria este autor capaz de entrar numa sala com 30 benfiquistas enraivecidos e dizer o que escreve na net ou será, por outro lado, um pacato cidadão que aproveita o anonimato que a Internet dá? E são estas dúvidas que vão obviamente alimentando o mito.

Novo zapping

Não sou daquele tipo de pessoas que adora dizer mal do próprio país para rematar com um "no país X é que é", até porque não sou propriamente um tipo muito viajado. Ainda assim, há coisas que vemos no estrangeiro e achamos que poderiam perfeitamente ser adaptadas ao nosso país. Isto a propósito das mudanças no sistema de passes nos transportes públicos na Grande Lisboa, que contará com um título recarregável válido para a Carris, Metro, Soflusa e Transtejo. Este sistema vigora de um modo bem sucedido na Holanda (abrangendo todos os transportes públicos no país todo) e simplifica bastante a vida de quem não tem passe e quase necessita de uma pós-graduação em transportes e tarifários cada vez que anda de transportes na Grande Lisboa.

Maliling-list

O Dia da Restauração da Independência, que hoje se assinala, poderia certamente ser motivo para um bom naipe de posts, mas a dúvida que me assalta no dia de hoje é sobre quem foi o malandro que em tempos me inscreveu na maling-list do Grupo dos Amigos de Olivença.

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