Se surgisse uma espécie de classificação de temas preferidos para discussão em Portugal, o futebol ficaria muito provavelmente em primeiro, pelo facto de reunir dois elementos bastante importantes na nossa maneira de ser enquanto povo: o ter-se opinião sobre tudo e o achar que se tem razão sobre tudo. Transpondo este raciocínio para o futebol, à faceta de treinador de bancada junta-se a ligação sentimental a um dado clube.
Por isso é que as discussões sobre futebol acabam por constituir a eterna tentativa de estabelecer a quadratura do círculo, quando são entre adeptos de diferentes clubes, dado que há poucas formas de se chegar a acordo: para um adepto, o seu clube é sempre melhor que o clube do vizinho que teve o azar de transportar a cruz de ser adepto do rival. Por isso, este não será dos temas mais indicados para profícuas discussões, a não ser que os interlocutores também sejam do mesmo clube que eu. Aí sim, há espaço para falar de futebol, esbatidos que estão os clubismos. Por exemplo, o recente desaire em Atenas e a forma infantil como acabou o jogo com o Vitória de Setúbal podem perfeitamente ser abordados, desde que no seio de benfiquistas, um pouco como os assuntos melindrosos que apenas devem ser tratados dentro da família. Daí se falar na grande família benfiquista, até porque é apenas aí que se pode dizer o que não se diz ao primo do Sporting ou ao colega de trabalho portista: que o Balboa é capaz de ser um flop, que o Artur Jorge foi posto no Benfica pelo Pinto da Costa, que o Luís Filipe Vieira nem sempre dá uma grande imagem do clube, que o Benfica TV é capaz de se revelar uma xaropada, que desde que o Carlos Lisboa acabou a carreira que nunca mais cilindrámos ninguém nas modalidades e por aí fora.
À semelhança do que já sucedia com espaços noutros meios de comunicação social - como os protagonizados pelo Fernando Correia na TSF e agora no RCP - a Internet deu um contributo fantástico para as discussões de futebol, transpondo para o virtual o que há muito se assiste nos cafés, nas paragens de autocarro ou nos locais de trabalho - a tal discussão desenfreada sobre futebol, com o extremar de posições e a instituição de um clima de quase guerra civil. Provavelmente estarei a esquecer-me de algum espaço importante, mas há dois sites particularmente interessantes que acolhem este clubismo à flôr da pele, em que o fanatismo é devidamente encoberto pelo manto de um certo anonimato que a Internet confere: o
Relvado e o
Record on-line.
O Relvado é o fórum de futebol mais antigo que conheço e é palco de acesas discussões, que metem insultos atentatórios à dignidade das mães dos outros utilizadores, e onde chegam a existir clones e utilizadores a fazerem-se passar por outros, tudo situações particularmente interessantes dado tratar-se de um fórum moderado. Enquanto dedilho esta prosa, posso ler o epíteto de "clube comatoso" dado por um sportinguista ao Benfica, embora noutro artigo o Porto seja comparado à mafia napolitana e sejam referidos os favores prestados ao Sporting desde a pala de Alvalade, não esquecendo igualemente a denuncia da "mediocridade reinante na comunicação social portuguesa". Quanto ao Record, é sabido que foi precisamente por fornecer uma plataforma que propicia aos utilizadores acesas discussões sobre os artigos lá colocados que conseguiu "dar um bigode" à concorrência, aliando a nobre arte do jornalismo à discussão de tasca. E também por aquelas bandas há gente que foi ganhando notoriedade à custa do clubismo e da provocação a outros comentadores, o que é natural se é de futebol que falamos. Um em particular suscita-me a atenção e tem o sugestivo nome de "PAULO FCPORTO", o que nada teria de mal não fosse um certo estilo arruaceiro e a tendência de querer deixar a sua marca em tudo o que é notícia e de as aproveitar para mandar sempre bitaites sobre o Benfica,
independentemente de a notícia ser sobre o seu clube ou o rival, sobre ralis ou a segunda divisão do campeonato turco, o que fará dele certamente um dos utilizadores com maior presença nos comentários da página deste jornal desportivo. Quem costuma ir ao site do Record já se deparou diversas vezes com este fenómeno, que suscita sempre a interrogação sobre quem se esconde por detrás do nick: seria este autor capaz de entrar numa sala com 30 benfiquistas enraivecidos e dizer o que escreve na net ou será, por outro lado, um pacato cidadão que aproveita o anonimato que a Internet dá? E são estas dúvidas que vão obviamente alimentando o mito.