Uma polémica foi suscitada porque
a Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação terá achado que uma secção da página do Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT) tinha o efeito inverso do que seria desejável, podendo ser um incentivo ao próprio consumo. O site
Tu Alinhas? pertence ao IDT e destina-se particularmente a jovens e à prevenção do consumo nesta faixa da população, até aqui tudo bem, mas o grande problema terá surgido com um dicionário de calão, que visa dar a conhecer todo um conjunto de termos ligados ao universo das drogas.
Se é certo que muitos dos termos são relativamente conhecidos da população, há coisas que merecem uma atenção especial neste
dicionário do calão ligado às drogas, porque a aprendizagem é um processo contínuo e é positiva a assunção da nossa própria ignorância:
Água - ?Vem aí a água...? ? vem aí a polícia. Quem foi o linguista que atribui este significado à expressão água? Um líquido que serve para beber, para nos lavarmos e para regar jardins que raio de associação terá à polícia do ponto de vista de alguém que anda na droga?
Bacalhau - ?Dar um bacalhau? ? injectar heroína . Esta expressão eu conheço, mas noutro contexto. Para mim, dar um bacalhau não é mais do que o vulgar "passou bem?", o aperto de mão sincero e fraterno, sem qualquer intuito de injectar heroína para as minhas veias ou às de terceiros. O tão português bacalhau teria certamente direito a ser associado a actividades humanas mais nobres.
Betinho - Aquele que não se droga. Conservador e desinteressante. Custa-me dar credibilidade a esta definição. Tecnicamente, um betinho é tido como um tipo de boas famílias, com roupa de marca e bens materiais para ostentar, cujo
habitat é normalmente associado a zonas onde se vive melhor - é probabilisticamente mais fácil encontrar um betinho nos concelhos de Oeiras ou Cascais do que no Cacém ou Santo António dos Cavaleiros. Ora bem, qualquer pessoa sabe que é precisamente daí que vem uma boa fatia dos consumidores de drogas na população juvenil, bem como das maiores facturas com bebidas em discotecas, um dado a que o factor poder económico está associado. Que sejam conservadores ainda aceito, desinteressantes também haverá alguns, mas associar esta tribo juvenil à abstinência de droga parece-me pouco correcto.
Broa - Polícia. Sempre ouvi dizer que broa é sinónimo de efeito de álcool ou drogas. Polícia e forças de autoridade talvez não entrem bem nestas contas.
Centenário - Variedade de ácidos, comemorativos do centenário da independência dos EUA. Então quer dizer que os grandes festejos em torno do centenário do Benfica, em 2004, tiveram a ver com ácidos, ainda por cima em grande variedade? Eu, na altura, bem que desconfiei...
Careta - Aquele que não se droga e, por isto é considerado conversador, desprezível e desinteressante. / Cocó - Betinho. Aquele que não se droga. Conservador e desinteressante. Remetendo para a anterior definição de betinho e para estes dois termos, supostamente sinónimos, haveria aqui muita associação a fazer. Será que os betinhos são, por inerência, caretas e cócós? Há aqui alguma espécie de associação fisiológica implícita, relativamente a algum problema de obstipação por parte de gente da linha de Cascais, susceptível de os obrigar a fazer caretas em determinados momentos? Será que uma necessidade tão básica do ser humano pode ser associada a determinadas opções de vida - o consumo ou não de drogas e álcool - bem como a um alinhamento ideológico - o facto de o IDT ser liderado por um militante do PCP influenciou esta associação a uma ideologia de Direita? -, podendo tudo isto estar consubstanciado neste panóplia de sinónimos?
Papar grupos - Ser enganado . Sempre associei esta expressão a ter de aturar pessoas para quem não estaríamos muito dispostos a dar conversa ou a conviver. Qual das duas explicações está correcta?
Ataque - Prostituição /Prostituir-se - Atacar. A primeira definição está correcta - vulgo, as senhoras que "atacam" em determinadas zonas da cidade -, mas a segunda parece-me uma associação semiológica forçada, que as pessoas que estudaram Lógica mais a fundo poderão explicar melhor do que eu - o ataque é uma figura de estilo que remete para determinada actividade profissional, mas usar essa mesma actividade profissional para designar uma metáfora faz pouco sentido. Se eu disser, por exemplo, que os mercados financeiros passam por uma "bolha", é perceptível que me refiro a uma especulação na bolsa, mas se disser que tenho uma especulação no pé direito, passarei certamente por parvo. Usando estas mesmas expressões prostituir-se e atacar, seria o mesmo que dizer que fulano tal foi alvo de prostituição de 10 cães selvagens.
Representar - Oferecer droga. Vender por favor. Dar e consumir juntos. Tudo isto parece poesia, um gesto profundamente altruísta, mas a própria definição pode remeter para uma pequena aldrabice da parte do sujeito que "representa", com segundas intenções. Ou isso ou o perpetuar do mito de que os actores são um bando de drogados.