O Pavilhão da Itália

Por indesculpável esquecimento, só hoje assinalo a data que passou despercebida em solo luso: há 10 anos (e três dias) encerrava a Expo 98. Quem se recordar do certame, não esquecerá que as primeiras semanas foram mornas e que as assistências registaram bons níveis em Agosto e Setembro, com as duas últimas semanas completamente ao rubro com os visitantes de última hora e muitos que não terão sequer aproveitado os dias que tinham no bilhete.

A Expo 98 contribuiu para um certo estado de euforia nacional que se apoderou da Nação no final da década de 90, com várias causas: a começar na própria exposição mundial, a vitória na organização do Euro 2004, o Nobel de José Saramago, um crescimento económico acima dos 3%, o desemprego baixo, os combustíveis a preços que hoje parecem risíveis, as privatizações que deram um contributo para o crescimento do mercado bolsista nacional e transmitiram à classe média a sensação de que poderiam melhorar substancialmente o seu nível de vida à conta dos mercados financeiros. O mais próximo que o país viveu disso foi aquando da realização do europeu de futebol em 2004 e da onda de euforia que se gerou.

O último dia foi o culminar desse grande sentimento de euforia e também do tipicamente portuguesa tendência de visitar os pavilhões à última da hora, de aproveitar os dias que restavam no bilhete. Constituía também o testemunhar o encerramento de um dos grandes certames internacionais realizados em Portugal. Rezam as estatísticas de que na noite de 30 de Setembro estiveram 400 mil pessoas, com todo o caos inerente: impossibilidade de aceder a barracas de comidas e bebidas, telemóveis sem rede, multidões a cada esquina, filas intermináveis para as saídas e para os transportes. E eu lembro-me bem do que fiz nessa noite: passei o evento a beber ginginha e amêndoa amarga que prudentemente levei para o recinto e, tolhido pelo cansaço e pela bebida, acabei por me conformar e acabar a dormir umas duas horas à porta do Pavilhão de Itália. O dormir em pleno recinto foi a solução adoptada por muita gente e recordo-me de até ter visto lá sacos-cama. Com todo o profissionalismo inerente ao facto de frequentar uma instituição privada de ensino, segui para as aulas às oito da manhã como se nada se tivesse passado, não sem antes testemunhar verdadeiras batalhas campais para entrar no metro na estação do Oriente.

O resto da história é o que se sabe: de grande promessa do urbanismo e da qualidade de vida na zona Oriental de Lisboa, aquela zona acabou por não sofrer grandes alterações na zona junto ao rio, mas acabou por se gerar quase um subúrbio de luxo à sua volta. Pese embora o pólo de atracção que constitui numa zona em que cinco anos antes se acumulavam barracas e entulho, não deixa de se sentir um certo amargo de boca pelo que foi prometido e pelo que realmente tudo aquilo se tornou.

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