
Do Boavista, devo dizê-lo, não sou simpatizante, e, à excepção de um
primo boavisteiro, não tenho quaisquer ligações familiares ou pessoais com alguém que dele seja adepto. Apesar de não ter nutrir simpatia pelo clube, merece algum respeito da minha parte o trabalho que nele foi desenvolvido nos últimos 10 anos. Quando vem à baila a discussão sobre o quarto grande, parece-me que aqui se recolhem bons argumentos para achar que esse clube é o Boavista. É um facto que, com João Loureiro, o clube deu um salto qualitativo importante, em termos futebolísticos, comparativamente ao que havia sido conseguido pelo seu pai, Valentim Loureiro.
A nível internacional, deixou de ser o clube conhecido na Europa do futebol como aquele cujos jogadores envergavam umas camisolas esquisitas, para passar a disputar jogos com grandes nomes do futebol do Velho Continente, tendo este percurso europeu valido uma segunda fase de grupos da Liga dos Campeões e uma meia-final perdida em 2003 pela diferença de um golo, com o Celtic.
Porém, no campo interno, houve um impacto ainda mais profundo: de equipa que lutava pelos lugares uefeiros, o Boavista passou a intrometer-se no feudo habitualmente ocupado pelos três grandes. E durante os últimos anos da década de 90 e nos primeiros do novo milénio, o público de futebol lá se foi habituando a ver o Boavista a bater o pé aos três grandes e a fazer campeonatos regulares. Até que, após muito "cheirar" os primeiros lugares, o clube lá se conseguiu sagrar campeão. Na época 2000/01, aproveitando a instabilidade que se vivia nos três crónicos candidatos - o Benfica pelas ruas da amargura, a acabar em sexto lugar, o Sporting a viver os dramas que habitualmente se registam após vencer o campeonato e o Porto com problemas internos de gestão e com Fernando Santos ao leme da equipa -, mas, acima de tudo, graças a uma equipa competitiva e bem orientada por Jaime Pacheco, o Boavista entra para a História do futebol português a ser a segunda equipa, que não uma dos "grandes" a sagrar-se campeã nacional.
Nos últimos 10 anos, o Boavista furou também a lógica de que, em Portugal, apenas os jogadores dos três grandes podiam levar nomes de relevo à Selecção Nacional. Com efeito, de equipa onde marcavam presença os idiossincráticos Mamadu Bóbó, Nelson Bertolazzi ou Marlon Brandão, o clube do Bessa passou a contribuir regularmente com jogadores para a equipa de todos nós. São os casos de Petit, Frechaut e Ricardo, tendo estes marcado presença no Mundial de 2002, no qual, de resto, o Boavista contribuiu com mais jogadores do que o Benfica. Por lá, vimos também jogar de axadrezado nomes importantes do futebol luso, como Bosingwa, Raúl Meireles, Litos, Delfim, Pedro Emanuel ou Rui Bento. A determinada altura, o modelo de gestão parecia bem delineado: anualmente saía um jogador da equipa principal, como forma de garantir verbas que não entravam nos cofres do clube pela forma tradicional, sem que isso afectasse o modelo desportivo.
A opção do clube em entrar na rota do Euro 2004 acabou por não ser bem sucedida, já que começaram a surgir problemas financeiros decorrentes de obras no estádio, uma factura que tem sido paga nos últimos anos, que, de resto, têm sido marcados por uma perda de relevo do clube no futebol português. O saldo de entrada e saída de jogadores acabou por se revelar negativo, pelo que as presenças nas competições europeias deixaram de constar no calendário do Boavista. E já sabe que, no futebol moderno, problemas desportivos e financeiros acabam quase sempre por andar de mãos dadas, o que se reflectiu no Boavista.
A nova gestão, que se inicia na terça-feira, tem certamente a obrigação de afugentar os fantasmas que pairam nas cabeças dos adeptos boavisteiros, que temem que o clube possa ter o mesmo destino que o Salgueiros, clube com o qual disputou durante muitos anos o título de segundo maior clube do Porto, mas que teve um final pouco feliz. E segurar o clube na primeira Liga e repôr alguma saúde financeiras nas suas contas será, para já, um passo muito importante.