
Recordo-me da polémica envolvendo a convocatória de Deco, há uns anos atrás. Lembro-me também que a polémica foi ultrapassada algum tempo depois, com o excelente Euro 2004 que protagonizou. O argumento para a contestação era, afinal de contas, válido, já que um jogador sem qualquer ligação prévia a Portugal iria representar as cores lusas, um pouco como segunda escolha, já que o jogador havia referido, no passado, que tinha o desejo de ser convocado por Scolari, mas enquanto este era seleccionador... do Brasil.
A polémica foi reaberta por estes dias, com a chamada de Pepe à selecção nacional, que hoje se concretizou. Scolari certamente aproveitará a benesse e continuará a chamar o jogador daqui para a frente, mas não é líquido que o jogador venha a ser titular em condições normais, já que os mecanismos no centro da defesa estão adquiridos há muito.
Esta chamada levanta novamente a questão sobre quem pode outorgar o direito de vestir as cores lusas ou, para ser mais abrangente, quem pode dizer efectivamente que é português. E, sobre este tema, já muito se falou e poucas conclusões foram retiradas. Será que apenas pode ser considerado português quem é filho de portugueses e nasceu e viveu sempre em terras lusas? Estamos portanto a esquecer os filhos de emigrantes que entretanto regressaram, filhos de imigrantes e que sempre viveram cá, portugueses em que apenas um dos progenitores é português ou simplesmente pessoas que, a determinada altura da vida, vieram para Portugal e passaram a gostar mais do nosso país do que do país de origem. Há quem diga que o nosso país é aquele que efectivamente aquele onde nos sentimos bem e que não tem de ser forçosamente onde nascemos. Se muitos portugueses que vivem no estrangeiro forem questionados sobre isso, talvez respondam que se sentem mais próximos do país que os acolheu do que aquele onde nasceram. Eu, pelo menos, conheço alguns casos assim.
Tanto quanto ouvi Pepe falar no assunto, julgo que há já alguns anos que tem o desejo de vestir as cores nacionais, porque Portugal lhe deu sempre mais oportunidades do que as que teve no Brasil, e ninguém duvide que a sua ida para o Real Madrid lhe abriria as portas da "canarinha". Se o jogador tem efectivamente o desejo de ser internacional por Portugal, e tendo as condições legais para o fazer, porque não dar-lhe essa possibilidade? Afinal de contas, o homem é tão português como o Bosingwa, filho de congoleses e nascido nesse país, ou o Nélson, que é cabo-verdiano e que poderia ter jogado pela selecção do seu país e que escolheu representar as nossas cores. E o que dizer de Manuel da Costa, filho de emigrantes portugueses na Holanda e que mal sabe falar português, e Amaury Bischoff, nascido em França e filho de mãe portuguesa. Num mundo onde há uma constante migração de pessoas um pouco por todo o mundo, nem sempre é fácil discernir de forma inequívoca sobre a nacionalidade de dada pessoa, quando a descendência, o local de nascimento e a vontade da pessoa não se conjugam para um mesmo país.
Paradoxalmente, por estes dias o país rejubilou com a vitória de Nélson Évora no triplo salto. O atleta também não é português, já que é filho de imigrantes de Cabo Verde e inclusivamente nasceu naquele país. Tão português como o Pepe, portanto. Francis Obikwelu também representou as cores lusas, apesar de ter nascido na Nigéria, desejando retribuir o apoio que lhe foi dado pelo país onde começou a trabalhar na construção civil. Ao mesmo tempo, a selecção nacional de basquetebol depara-se com um dilema entre a convocação de um de dois jogadores naturalizados portugueses, pois os regulamentos só permitem a inscrição de um atleta nessas condições. Para evitar este tipo de problemas e discussões, talvez o ideal fosse a discussão desta questão ao nível de todo o desporto português sobre quem deve ou não deve envergar as cores lusas. Até lá, quem tem condições legais, valor e vontade de o fazer, beneficiará dessa possibilidade. E esse é o caso de Pepe, que, quer queiramos quer não, pode não ser melhor que os dois centrais titulares, mas é certamente melhor que as opções Ricardo Costa, Bruno Alves ou Ricardo Rocha.








