O resultado das eleições em Lisboa prova, em primeiro lugar, que se mantém e até se agudiza o descrédito das pessoas nos partidos e na vida política. Não obstante serem eleições intercalares e o período do ano em que se realizam, a abstenção superior a 60% e o total de 28% das duas candidaturas independentes deveriam ser razões para uma reflexão da classe política portuguesa.
Tal como se esperava, António Costa ganhou as eleições de forma relativamente folgada, mas não "cilindrou" a concorrência, o que também se suspeitava há algum tempo. Não chegou aos 30%, o que leva a pensar que terá perdido algum tradicional eleitorado do PS para Helena Roseta. Na minha opinião, a maior surpresa destas eleições terá sido Carmona Rodrigues. Apesar das suspeitas em relação a negócios imobiliários pouco claros e a remunerações em empresas municipais, conseguiu sair incólume das polémicas que afectaram a sua gestão autárquica e conseguiu o segundo lugar, apesar de não ter uma máquina partidária e de não ser uma figura propriamente carismática. Beneficiou também do facto de o passado recente da autarquia ter sido um pouco menosprezado como tema de campanha pela maior parte dos adversários.
De salientar o fraco resultado do PSD, que terá perdido algum eleitorado tradicional para Carmona Rodrigues e pode ter sido o mais prejudicado pela abstenção. Helena Roseta conseguiu uns honrosos 10%, à frente das candidaturas da CDU e Bloco de Esquerda, que perderam votos face a 2005, o que demonstra que os votos de Helena Roseta podem ter vindo de habituais votantes dos três partidos de Esquerda. O CDS teve o "mérito" de não conseguir sequer eleger um vereador, apesar de o cabeça de lista ser um destacado dirigente do partido.
Quanto ao pós-eleições em Lisboa, gostaria que se dessem passos importantes para serem dadas respostas aos problemas que são conhecidos na capital: maior transparência na gestão de algumas empresas municipais, o reforço da oferta de transportes públicos, a diminuição de circulação de automóveis em algumas zonas, a reabilitação de zonas históricas ou o combate à especulação imobiliária.

1 comentários:
Continua o incompreensível direito de voto exclusivo em Lisboa dos residentes em Lisboa.
Sendo que residir em Lisboa é cada vez mais raro, como se sabe, relativamente ao número de pessoas que aí vivem todo o dia, porque aí trabalham, estudam, ou porque passam aí quase todo o seu tempo.
Todos aqueles que penam no IC19 ou na autoestrada Cascais-Lisboa ou na Ponte 25 de Abril, Vasco da Gama e afins passam o seu dia em Lisboa.
Muitas vezes mal conhecem o sítio onde vivem, desde os vizinhos a quem é o presidente da Câmara, para não falar no -- nunca soube quem é, nem de que partido é -- presidente da 'junta'.
No entanto, não votam em Lisboa.
A mesma Lisboa onde fazem tudo, onde gastam e ganham dinheiro, que conhecem melhor que o concelho onde vão dormir.
O que leva L. a pensar se os resultados eleitorais em Lisboa não serão injustos, errados e inúteis.
Pelo menos enquanto os universitários e restantes estudantes, e todos os que 'dormem' fora de Lisboa, que trabalham em Lisboa, aqueles cujo BI não diz Lisboa em 'residência', não votarem em Lisboa.
Porque vendo bem, são eles que vivem -- e que são -- a Capital.
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