Uma das metas do actual Governo é aumentar o nível de formação dos portugueses, porque quando este melhora, o País ganha em competitividade e a coisa vai para a frente. O objectivo é nobre, embora com uma certa carga de paternalismo, esquecendo-se de existe muita gente que nem de carregar os livros gosta, quanto mais de estudar.
Vai daí, lançou o programa Novas Oportunidades, destinado a proporcionar a equivalência de competências e o fomento da formação de quem já largou há muito tempo a escola e também visando os jovens, para que estes tenham a noção de que é importante continuar a estudar para ser alguém na vida e concretizar os sonhos.
É nesta variante da campanha que gostaria de pegar. Os anúncios trazem figuras conhecidas que se distinguiram numa determinada área e faz um exercício típico do filme "Regresso ao futuro", mostrando a Maria Gambina a trabalhar numa lavandaria, a Judite de Sousa a trabalhar numa livraria, o Pedro Abrunhosa a fazer a manutenção de um espaço de espectáculos e o Carlos Queiroz a ajudar na limpeza do estádio do Manchester United, num cenário hipotético do que a sua vida seria se os estudos tivessem ficado a meio. Pelo meio, a carga moral: se não quiserem ter esta profissão, então estudem!
Ora bem, este anúncio parece-me pouco digno de figurar numa campanha promovida pelo Governo deste país - e, por inerência, com dinheiro do erário público - por duas grandes razões:
- em primeiro lugar, porque dá a entender, e de uma forma pouco subtil, que há profissões e actividades menores e sem qualquer relevância social, como a limpeza e a lavandaria, e que vão lá parar os restos da sociedade e quem não teve paciência para estudar na altura certa. Seria uma boa forma de chamar a atenção se não existissem pessoas que gostam de ser jardineiros ou carpinteiros. No fundo, é o retrato de um país que venera as suas Expos e os seus estádios de futebol e se esquece dos milhares de desgraçados que por lá andaram a acartar baldes de cimento.
- em segundo lugar, transmite uma relação de quase causa-efeito na relação entre o estudo e a obtenção de um emprego estável e próspero, quando sabemos que em Portugal isso é um autêntico mito. Basta recordar a percentagem de licenciados inscritos em centros de emprego e aqueles que, estando empregados, auferem ordenados próximos das profissões que são caricaturizadas nos anúncios, seja na própria área de actividade ou engrossando as fileiras dos funcionários de call centers. E a imagem de Judite de Sousa a trabalhar numa livraria porque não terminou os estudos só pode vir a da cabeça de alguém que desconhece as habilitações de muita gente que desempenha esses cargos. Vão ver qual o grau de instrução de muita da rapaziada que trabalha no atendimento nas FNAC's deste país e deslumbrem-se com a panóplia de cursos superiores.

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