Há coisa de 10 anos, por esta altura do ano, a única prenda que eu tinha na lista era uma ligação à Internet, que consistiria num
modem. Infelizmente, a autoridade a quem competia tomar a decisão (neste caso, os meus pais) não assistiu ao meu pedido.
Confusos? Porque raio colocar aqui um pedido antigo de uma prenda de Natal que acabei por não receber? Explico: um destes dias ocorreu lembrar-me deste facto e também me ocorreu fazer um exercício de memória em busca de elementos que me permitissem reconstruir o que era o acesso à Internet em finais de 1996. E algumas das coisas até podem parecer anedóticas, mas a passagem do tempo tem esse dom.
Na altura, as únicas pessoas minhas conhecidas que tinham acesso à Internet em casa (era uma coisa que dava os primeiros passos na maioria das empresas) eram o meu colega de carteira e um professor de Informática. Se mesmo um simples PC não era coisa que toda a gente tivesse, imagine-se um acesso à Internet. E foi à conta desse meu colega de carteira que fiquei com o "bichinho" de querer ter Net.
Para se poder ter acesso, era necessário um
modem de 14.4 kbps, mas começavam a aparecer os de 28 kbps, que custavam uns 40 contos. Para se aceder era necessário ter um acesso através de uma empresa e tinha de se comprar um pacote de um mínimo de 15 horas de navegação por mês, a que acrescia as chamadas telefónicas. O acesso à Net teria de se fazer para um dos servidores da PT, se o mais próximo funcionasse pagava-se a chamada local, senão até poderia ser uma chamada regional. Na altura, os serviços de Internet eram fornecidos por empresas como a Telepac, a IP e a Esoterica, para citar as mais conhecidas. Para se poder ter um endereço de e-mail personalizado, era preciso enviar um postal para a dita empresa com as três opções desejadas. As pessoas que usufruíam do e-mail eram tão poucas, que chegou a haver uma espécie de páginas amarelas dos fornecedores das empresas com todos os endereços e recordo-me perfeitamente que o último nome da lista da Telepac era o escritor Rui Zink.
Em termos do que era o acesso estamos conversados. No que diz respeito aos serviços de busca de informação a que era possível aceder, havia a página de referência que era o Yahoo, que era o grande motor de busca (do Google não se falava). Em Portugal, o Sapo ainda era o motor de pesquisa criado pela Universidade de Aveiro, havendo outras referências importantes como o AEIOU e o Cusco. Nesse aspecto, levávamos um baile dos brasileiros, que tinham muitos mais e melhores motores de busca.
No início de 1997, por decisão governamental foi criado o Terravista, o que constitui a primeira grande oportunidade de os portugueses poderem colocar páginas na Internet, o que aconteceu comigo e mais algumas pessoas que fizeram o site "Literatura Alternativa", que ainda deu cartas e foi alvo de algumas referências na comunicação social e pôs em contacto uns aspirantes a escritores de Portugal e do Brasil. Olhando para trás, aquilo nem era nada de especial, mas face ao vazio que havia de produção nacional na Internet até podia ser considerada coisa boa. Aliás, o Terravista foi buscar muitas referências a um serviço americano que também se destinava a um vulgar utilizador de Internet, o Geocities.
Acabei por ter Net três anos depois, graças a uma ligação do Clix e um modem de 33 kbps, onde se pagavam sempre as chamadas locais e não era necessário comprar pacotes de horas de navegação. Aliás, esses acessos e, uns anos mais tarde, a profusão da banda larga foram os grandes impulsionadores da generalização da Internet à população portuguesa.