O fim, cinco anos depois

Há cinco anos atrás, nascia este blogue. Na altura, tinha finalizado uns meses antes um site dedicado a colecionar as pérolas da Internet e achava que era então tempo de me lançar num blogue. A ideia seria criar um espaço em que, a partir de um olhar pessoal, me dedicaria a falar dos mais variados assuntos, tentando sempre evitar o umbiguismo e tendo sempre presente - aí com os cinco anos de um curso universitário de Comunicação a servirem de influência - que haveria sempre alguém a ler o que aqui escreveria. A tão propalada Lei de Murphy, que serviu de nome para este blogue, foi tema de uma ou duas dezenas de posts, mas com o tempo deixou ironicamente de o ser.

Nestes cinco anos, ocorreram mudanças significativas no país e no mundo, bem como uma ou outra coisa mais ou menos relevante na minha vida pessoal, que obviamente ditaram o que por aqui se escreveu. Mas acima de tudo, houve mudanças fundamentais na Internet, que ditaram mudanças na forma como todos nós usamos a rede. Há cinco anos atrás, a maioria das pessoas desconhecia a existência do Youtube e o grande fenómeno Facebook estava longe de ser sequer familiar para os internautas. Essas mudanças conduziram a novos rumos na relação entre cada um de nós e a Internet: se há meia dúzia de anos, os blogues eram a forma mais comum de marcarmos presente e serviam de veículo para dizermos o que quiséssemos ao mundo - fosse o bolo que comemos ao pequeno-almoço ou a expectativa pela eleição do primeiro presidente negro na América - e podendo com isso funcionar como um palco de ideias, não é menos verdade que os blogues acabaram também por ser vítimas desse efeito de eucalipto protagonizado pelo Facebook, que consegue aglutinar diversas coisas que antes pouco tinham a ver entre si: o e-mail, as notícias ou os fóruns de discussão. A partir desse momento, os blogues perderam o interesse que tinham no passado e basta comparar as visitas dos blogues há quatro ou cinco anos e agora.

Para além dessas mudanças no mundo da Internet, houve também algumas mudanças a nível pessoal que ditaram a forma como fui gerindo o blogue. Quando este blogue surgiu, tinha consideravelmente mais tempo livre e disposição para escrever numa frequência quase diária, facto que mudou quando mudei de emprego, há pouco mais de dois anos e meio, quando passei a trabalhar mais horas e a dedicar-me a outras atividades fora do trabalho. Pelo meio, alguns blogues paralelos, iniciados no período pré-mudança de emprego, foram sendo acabados, por diferentes razões.

Esta conversa de político serve, no fundo, para anunciar de forma pesarosa o fim d'A Lei de Murphy. Sendo mais ou menos visível que este blogue perdeu há algum tempo o seu caráter de atualização quase diária e que da minha parte nem sempre havia a disposição para manter esse fluxo de posts, faria pouco sentido continuar a manter algo que já não cumpria a função para o qual foi criado.

Agradeço a todos quantos por aqui foram passando ao longo destes últimos cinco anos, pessoas que foram comentando os posts - até os comentários passaram a ser bem menos, veja-se lá isto - e passando regularmente por aqui. Importa dizer que alguns desses visitantes regulares nem sequer os conhecia quando o blogue nasceu. Também importa salientar as dezenas de links vindos de outros blogues para aqui, o que ajudou a que tivessem sido registados em largos períodos de tempos visitas diárias na casa dos três dígitos. Estes cinco anos valeram claramente a pena. Um grande obrigado a todos!

PS: quem me conhece minimamente sabe que será difícil abandonar em definitivo o mundo da Internet - referindo-me a blogues e sites - sobretudo porque já por aqui quando ainda nem idade tinha para votar. Certamente que irei arranjar uma outra maneira de por aqui andar, nem que seja noutros moldes, menos exigentes em termos de dedicação. Apraz-me antes dizer que isto mais não é do que um até já.

A saída do 21

Por entre um defeso bem recheado de notícias sobre entradas e saídas de jogadores - para muitos, o mais profícuo período para ler notícias sobre futebol - saiu a notícia de que Nuno Gomes não continuará de água ao peito na próxima época. Para quem segue com um mínimo de atenção o mundo futebolístico, a notícia não surpreende, dado falarmos de um jogador que tem perdido protagonismo nas últimas épocas, a que não será alheia a vinda de novos jogadores para o ataque e também a natural perda de qualidades com o passar dos anos.

Vemos também o nosso passar dos anos quando olhamos para a carreira de Nuno Gomes, nomeadamente ao tentar vasculhar nas memórias o momento em que apareceu aos olhos do público de futebol. Nem mais nem menos do que o mundial de júniores do Qatar, em 95, de onde a seleção portuguesa saiu com um honroso terceiro lugar, jogando ao lado de Dani ou Agostinho. Dois anos depois, daria o salto do Boavista para o Benfica, onde esteve por três épocas, regressando em 2002, depois de duas épocas na Fiorentina. Feitas bem as contas, 12 foram as épocas com a camisola do Benfica, o que, para quem tem boas memórias futebolísticas como eu, traz invariavelmente ao de cima memórias daquilo que o avançado viveu: o jogar ao lado de João Pinto, Poborsky e Simão Sabrosa, as centenas de colegas de balneário (muitos deles cuja lembrança neste momento seria um momento tragicómico) , o atuar nos dois estádios da Luz, os títulos de campeão e as épocas de desgraça, as vitórias gloriosas e os jogos que levantaram a moral dos anti-Benfica ou a presidência de Vale e Azevedo.

Sempre me pareceu que houve um certo empolamento de fenómenos no mundo benfiquista, com o nome de Rui Costa à cabeça e o sebastianismo que envolveria o seu regresso. Comparando com Nuno Gomes e o que um e outro deram ao clube, podendo acrescentar-se Simão Sabrosa a este raciocínio, só podemos dizer que o único defeito destes dois últimos foi não terem nascido para o futebol no Benfica, porque ambos tiveram um contributo maior para o sucesso do clube do que Rui Costa. A saída de Nuno Gomes, que até poderá continuar a sua carreira noutro clube português, certamente que não irá afastá-lo desse universo benfiquista, da mesma maneira que no passado jogadores como Oceano, Sá Pinto ou Jorge Costa não deixaram de ficar fortemente associados aos clubes onde fizeram maioritariamente a carreira só por terem feito a última época noutro clube. É que 12 anos num clube como o Benfica soa a algo um tanto ou quanto despropositado. Demasiado para cair no esquecimento.

Legislativas

O resultado das eleições legislativas de ontem refletiu o ambiente de fim de festa e de expectativa de mudança de Governo. Por um lado, houve uma transferência significativa de votos do partido do Governo para aquele que teria mais hipóteses de ganhar - neste caso protagonizada por aquele eleitorado pouco ideológico e mais oscilante, que tanto vota no PS como no PSD e que normalmente decide os resultados finais. Verificou-se também a penalização dos partidos mais pequenos devido ao fenómeno do voto útil - que afetou essencialmente o BE, mas que inviabilizou um crescimento maior do CDS. Fica no ar a ideia de que a vitória do PSD se deveu mais à intenção de parte do eleitorado em afastar José Sócrates do cargo de Primeiro-Ministro do que propriamente numa esperança significativa de que quem vier a seguir vá mudar substancialmente o estado de coisas, sendo mais expectável uma alteração de protagonistas e de estilo do que de políticas, até porque já se sabe que a margem de manobra imposta pelo FMI para os próximos anos não é grande.

Para quem se interessa pela política à portuguesa, há dois fenómenos interessantes a seguir, ambos à Esquerda. Em primeiro lugar, saber de que modo o PS irá gerir a saída de José Sócrates. É sabido que o partido nos últimos anos tem sido governado à sombra do líder demissionário, pelo que as discussões ideológicas e de programa andaram longe das preocupações do partido. As eleições para a escolha de um novo líder poderão ser a primeira oportunidade para essa discussão. Em segundo lugar, o resultado do Bloco de Esquerda, que perdeu metade dos votos e dos deputados em comparação com 2009, deverá obviamente gerar algum debate interno sobre as recentes decisões - desde o apoio a Manuel Alegre até à ausência nas reuniões com o FMI - e também sobre se irá manter-se essencialmente como destino de um voto de protesto ou se irá contribuir para um entendimento mais amplo à esquerda da nova coligação governamental que agora se forma.

Por último, uma nota sobre os resultados de dois dos partidos que praticamente correm por fora nas eleições: MRPP e PAN conseguiram ambos votações acima de 1%, sem que tivessem conseguido eleger qualquer representante. Por outro lado, este mesmo sistema de atribuição de deputados dá 50% de representação parlamentar a partidos que consigam à volta de 45% dos votos, o que obviamente enviesa uma proporção entre resultados e representação dos cidadãos no Parlamento. Métodos de Hondt à parte, seria mais do que justo que qualquer um destes dois partidos conseguisse eleger pelo menos um deputado no Parlamento, face aos resultados das escolhas dos eleitores. Antes de se discutir o elevado abstencionismo nestas eleições, seria importante também discutir a lei eleitoral que deixa de fora franjas de eleitores, que compreensivelmente poderão achar que o seu voto simplesmente acaba por ser inútil.

Os votos no CDS

Não tenho sido o mais fiel seguidor da campanha eleitoral, o que não será a melhor das atitudes mas, excetuando a discussão reduzida quase a pormenores entre PS e PSD, que estão condenados a serem pouco mais que executores do programa do FMI, sobressai um facto importante, que é o desempenho do CDS nas sondagens. Por norma, numa situação em que há um partido no Governo e o seu principal adversário surge bem colocado para o derrotar, é normal a deslocação de votos dessa área política por parte de pessoas que votariam em condições normais noutros partidos, quando o voto estratégico se sobrepõe ao chamado voto sincero ou, por outras palavras, o voto útil.

É um dado relevante o facto de o CDS estar bem colocado nas sondagens, não só porque o voto útil parece não estar a afastar possíveis votantes - com a agravante de PS e PSD estarem muito próximos em intenções de voto - como é conhecido o fraco desempenho do partido em sondagens, tal como sucede com CDU e Bloco de Esquerda, que se deve em parte ao facto de nem sempre os inquiridos estarem disponíveis a revelar aos inquiridores a intenção de votar num partido fora do mainstream político. Estes dois factores levam a pensar que haverá mais motivos de interesse na noite do 5 de Junho do que saber que partido sairá vencedor.

Balas 3

Qualquer indivíduo conhecedor do underground do cinema português conhecerá a saga "Balas e Bolinhos", que já deu dois filmes - lançados em 2001 e 2004 - e cujos protagonistas personificavam uma paródia da figura do herói do cinema de aventura. Os filmes, facilmente incluídos no registo da série B - sobretudo o primeiro - conseguiram o estatuto de filme de culto, sobretudo devido às especificidades das personagens, sempre de língua afiada e com o recorde de palavrões ditos por qualquer personagem num filme português. Depois da segunda saga, ficou no ar que a coisa ficaria por aí, embora nada tenha ficado fechado em termos de história que impedisse uma continuação. Os fãs da saga podem ficar descansados: o derradeiro capítulo desta trilogia única do cinema português está a avançar. Para os interessados, as notícias sobre o processo de concepção do filme pode ser acompanhado aqui.

O pré e o pós-Jorge Jesus

O fim da época do Benfica é evidentemente o melhor dos períodos para efetuar balanços. Para quem vinha de um título que já fugia há cinco anos, as expectativas eram obviamente altas e tudo o que fosse abaixo do que se conseguira em 2010 saberia a pouco. O que é facto é que soube e só por excessiva boa vontade se pode dizer que a época não trouxe um sabor a desilusão, já que a revalidação da Taça da Liga, a impressionante série de vitórias consecutivas a meio da temporada e as meias-finais da Liga Europa não disfarçam os 20 pontos de distância para o campeão, a perda de qualidade no plantel de uma temporada para a outra em virtude de saídas não devidamente acauteladas e o morrer na praia na Taça de Portugal e na Liga Europa.

Nestas alturas, o bode expiatório acaba por ser a mesma pessoa que há um ano atrás era colocado nos píncaros no mundo benfiquista, mostrando que do céu ao inferno a distância é mais pequena no Benfica do que noutro clube qualquer. Se é certo que haveria fatores não controláveis, como a épica prestação do Porto ou o cansaço dos jogadores que estiveram no último Mundial, não é menos verdade que não foi feito o devido planeamento do plantel para acautelar as saídas de jogadores e que nos jogos realmente decisivos a equipa tremeu bastante e as estratégias do treinador ajudaram para isso - uma falha que já vinha da época anterior, basta recordar a derrota com o Liverpool. Ainda assim, faço parte do grupo, provavelmente minoritário, de pessoas que acha que Jesus deve ficar na próxima temporada. Acreditando que há sempre uma margem para aprender com os erros do passado e que essa aprendizagem será útil no futuro, é também importante acrescentar o que se conseguiu nos últimos dois anos: um título nacional (que fugia já cinco anos), duas Taças da Liga, uma meia-final de uma competição europeia (algo inédito desde 1994) e a ajuda inquestionável para a evolução de alguns jogadores. Basta pensar no pré e no pós-Jesus de jogadores como Fábio Coentrão, Di Maria ou Carlos Martins.

No intervalo



Não ouvi nenhuma das canções que foram à final da Eurovisão deste ano, mas tenho quase a certeza que as melhores foram as duas canções que o Jan Delay cantou no intervalo.

Os vídeos dos Ban

Se é certo que hoje em dia quem se dedica ao negócio da música em Portugal tem mais facilmente acesso a meios para efetuar e divulgar as suas gravações em concertos e programas televisivos, há coisa de 20 ou 30 anos esta facilidade não existia. Para citar o exemplo dos videoclips, não faria certamente muito sentido um grande investimento neles quando estes correriam o risco de passarem uma ou duas vezes num qualquer programa televisivo meio underground, isto se fosse suficientemente bom. Houve, no entanto, quem tivesse feito devidamente o trabalho de casa. A banda em causa são os Ban, de que gosto bastante o que para o caso é irrelevante. O canal do Youtube BANDiscografia é provavelmente o catálogo mais completo de uma banda portuguesa que já vi, com várias gravações de concertos, remixes de músicas, aparições televisivas, videoclipes que não terão sido transmitidos mais do que duas ou três vezes na televisão, perfazendo quase 130 vídeos. Um must see para quem gosta desta banda, que regressou recentemente ao ativo.

O que diz Catroga

As declarações de Eduardo Catroga, em que afirmava que urge discutir as questões estruturais em detrimento de pêlos públicos, tem dois méritos: em primeiro lugar, diz uma coisa mais ou menos óbvia sobretudo numa altura - como as notícias de hoje deram conta - de que o país está numa recessão e importa perceber como sair dela, em segundo lugar porque as reações que se seguiram lhe dão precisamente razão. O país está endividado, desmesuradamente depende do estrangeiro e em recessão e, em vez de se discutir esta questão, alvitra-se sobre uma fífia de alguém que nem sequer concorre a cargo nenhum. Depois dos rios de tinta gastos com Fernando Nobre, vem isto. Os tais pêlos púbicos parecem mesmo ser o cerne da discussão política e económica em Portugal.

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O exemplo do azeite

No meio de tão intensa discussão sobre ajuda externa, de que forma aqui chegámos e de que modo o aguentaremos as medidas que o FMI tem em carteira, tem-se discutido pouco o que é fundamental: qual a forma de o país de forma sustentada conseguir crescer de forma a fazer face aos grandes problemas (desemprego, dinheiro para as pensões, endividamento) ? Parece haver um fenómeno meio underground - por se falar pouco nele - um pouco por todo o país, que tanto resulta de uma pequena mudança de paradigma no tecido empresarial, como curiosamente por uma certa asfixia económica dentro de portas que obriga os empresários a abrir-se aos mercados externos. Esse fenómeno chama-se aumento das exportações, que deixaram de ser têxteis baratos ou o turismo para ingleses de classe média baixa, mas cada vez mais com produtos com valor acrescentado - saliente-se o que se tem feito nas energias renováveis. Nesse sentido, vão existindo notícias que são umas pequenas luzes ao fundo do túnel, como o facto de o aumento das exportações do azeite no último ano ter sido de 37% e de o país ter tido um saldo positivo em matéria de importações e exportações.

"Peso pesado"

Não me espanta o facto de haver uma versão de "The biggest looser" na televisão portuguesa, surpreende-me apenas o facto de esta ter surgido apenas agora. Vi pouco da versão lusa, mas a versão americana tem todos os condimentos de um bom reality show: a figura do coitadinho - pela ótica do programa, um obeso nunca chegou a tal estado porque é um bom garfo ou porque prefere ficar no sofá a praticar desporto, mas antes porque a sua vida é de tal maneira infeliz que a coisa chegou a tal ponto - , a componente de sofrimento adjacente ao trabalho e esforço dispendido por cada uma das pessoas, os maus e os bons da fita consoante se apoiem mais ou menos em estratégias e o facto de ser seguido um caminho do início ao fim - como sucede, por exemplo, em programas como a Operação Triunfo. Do pouco que vi, o enfoque tem sido dado mais em aspetos colaterais - como jogos para obter a imunidade nas pesagens - e não naquilo que realmente importa, que é o esforço titânico que aquela gente faz todos os dias, passando num dia no ginásio mais do que a maioria das pessoas que os frequenta passa numa semana. Se houver um enfoque nessa componente de esforço, talvez uma mensagem minimamente positiva saia dali. Caso a componente da intriga e da maldicência venha ao de cima, então um qualquer Big Brother seria suficiente.